Eu não sei ao
certo se sou eu quem sou conservador, ou melhor, retrógrado demais ou se foi
realmente a qualidade das animações que caiu, e muito, de uns tempos para cá.
Sinceramente, creio que a preocupação com a qualidade gráfica das produções
atuais fez com que a criatividade do roteiro das mesmas fosse praticamente esquecida
de uns tempos para cá, fazendo com que as obras perdessem bastante de sua
qualidade artística. Não que eu não goste de animações como “Ratatouille”, “Wallace & Gromit – A Batalha dos Vegetais”, “Shrek”, “Jimmy Neutron – O Menino Gênio” ou até mesmo “Os Incríveis”, muito pelo contrário, gosto muitíssimo das mesmas,
mas ainda assim acredito que nenhuma destas chegue aos pés de um “O Rei Leão”, ou uma “Branca de Neve e os Sete Anões”, ou um “O Estranho Mundo de Jack”.
Surpreendentemente, em 2008, os estúdios Disney-Pixar
conseguiram, em apenas 5 minutos de projeção, criar uma animação mais criativa
e divertida do que todas as outras animações feitas nestes últimos 14 anos. Me
refiro ao curta “Presto”, cuja
criatividade, simplicidade e sagacidade das piadinhas embutidas no roteiro, nos
remete aos bons tempos de “Tom &
Jerry”, “Pica-Pau” e é claro, “Mickey & Donald”. Mais surpreendente
ainda é a animação que nos é apresentada logo em seguida, que além de ser
extremamente criativa, divertida e emocionante (conseguiu arrancar lágrimas até
mesmo deste que vos escreve, que, segundo algumas pessoas, é um niilista coração
de pedra), une aspectos das animações antigas (criatividade e humor
inteligente) com debates existenciais. Estou falando de “Wall-E”, a melhor e mais bem feita (em todos os sentidos) animação que já tive a oportunidade de assistir
nos últimos 14 anos, conforme o leitor poderá constatar a seguir.
Ficha Técnica: Título
Original: Wall-E Gênero: Animação Tempo de Duração: 97 minutos Ano de Lançamento (EUA): 2008 Site Oficial:www.disney.com.br/cinema/walle Estúdio: Walt Disney Pictures / Pixar Animation Studios Distribuição: Walt Disney Studios Motion Pictures Direção: Andrew Stanton Roteiro: Andrew Stanton Produção: Jim Morris Música: Thomas Newman Desenho de Produção: Ralph Eggleston Edição: Stephen Schaffer Elenco (Vozes):Ben Burtt (Wall-E / M-O), Elissa Knight (Eva), Jeff
Garlin (Capitão), Fred Willard (Shelby
Forthright), John Ratzenberger (John), Kathy Najimy (Mary) e Sigourney Weaver (Auto).
Sinopse:No ano de 2.815 d.C. o
planeta Terra, mediante o desleixo de seus habitantes, encontra-se em uma
situação caótica, coberto de lixo, fazendo com que a vida em sua superfície
torne-se impossível de se proliferar. A fim de reverter tal situação, os
terráqueos abandonaram o planeta e designaram a missão de limpá-lo ao robô
Wall-E. Completamente isolado no mundo, Wall-E tem uma vida enfadonha e sem
propósito, até que conhece Eve, uma robô que mudará o curso de seu destino para
sempre e irá ajudá-lo a provar que ainda existe a possibilidade de se viver na superfície
terrestre.
Wall-E - Trailer:
Wall-E - Trailer 2:
Crítica:
”Wall-E” inicia-se com uma belíssima
música e um fantástico close da Via Láctea. Logo as câmeras nos
direcionam à Terra e temos uma visão aérea do corpo celeste. O ano é 2.815 d.C.,
o planeta encontra-se abandonado e coberto de lixo, seus únicos habitantes são
os insetos e um pequeno e desengonçado robô que tem como incumbência a tarefa
de limpar todo o lixo da Terra. É aí que tomamos ciência de que a belíssima
música que abre o filme estava sendo reproduzida e ouvida pelo robô com o único
intuito de conferir mais alegria à vida solitária da triste e pobre máquina.
A animação vai se
desenrolando, Wall-E vai sendo
cada vez mais bem desenvolvido e aproveitado pelo roteiro que foca, acima de
tudo, na tristeza que o mesmo sente devido à sua vida solitária, rotineira e
depressiva. O único ser com quem ele se relaciona é uma barata, que é vista por
ele como um animal de estimação, um cão, ou um gato, ou qualquer outro animal
capaz de lhe fazer companhia.
Como o leitor pôde perceber,
em apenas dez minutos de projeção já se é capaz de notar toda a criatividade e
perspicácia do roteiro que, além de criar pequenas peculiaridades que
contribuem, e muito, para o desenvolvimento do protagonista (a barata de
estimação é a maior prova disso), consegue mesclar com maestria características
de Charles Chaplin e Woody Allen ao personagem-título.
É isso mesmo, para desenvolver Wall-E os
roteiristas do filme utilizaram várias características destes dois gênios do
Cinema. Repare, por exemplo, no jeito simplório e desajeitado com que o
simpático robô manuseia uma raquete de tênis, nos remetendo à imediata
lembrança do maior ícone da história do Cinema mudo. Repare também nas feições
do protagonista, no olhar depressivo deste, idênticos ao do intelectual de
ascendência judia.
“Wall-E” é um filme que já valeira
cada centavo cobrado por seu ingresso apenas pelo protagonista que, além de
tremendamente cativante e perfeitamente bem desenvolvido pelo roteiro, fôra
desenhado com uma competência fora do comum. E os responsáveis pelos efeitos
visuais merecem todos os elogios existentes em nosso (e em todos os outros,
diga-se) vocabulário. É incrível a perfeição com que o robô (e os demais
personagens) fôra desenhado, tanto que chegamos a acreditar que Wall-E não é um
desenho, mas sim um personagem real.
Tão bem produzida e desenvolvida quanto é
Eve, o par romântico de nosso robozinho melancólico. E falando em par
romântico, é incrível ver a sutileza com que o mesmo é desenvolvido pelo
roteiro. Francamente, creio ser impossível não nos cativarmos com o casal que,
desde já digo, possui uma das melhores químicas entre personagens já vista no
Cinema deste início de século.
Outro ponto fortíssimo da animação
reside na análise que a mesma realiza sobre a dependência humana perante o
conforto que a alta tecnologia nos proporciona, tornando-nos seres sedentários
ao extremo, além, é claro, “escravos” das máquinas. Para demonstrar isso, o
longa opta, brilhantemente, por fazer referências (e porque não dizer,
homenagens) ao sensacional “2001 – Uma Odisséia no Espaço”.
Perdido (e fascinado,
diga-se) com tanta perfeição, é até estranho que eu tenha conseguido encontrar
um defeito no filme, mas a verdade é que o mesmo cai bastante no intróito de
seu segundo ato quando dá a entender que se transformará em uma aventura
descerebrada e opta, terrivelmente, por parar de desenvolver seus personagens
de modo tão cativante como vinha fazendo até então. Felizmente o roteiro
abandona tal idéia durante o desenrolar da película e decide abordar, durante o
seu terceiro ato, o tema existencial entre homem-tecnologia, conforme fôra
supracitado.
Um filme fabuloso e, com o
prévio perdão pela utilização da palavra meiga e piegas ao extremo, fofíssimo.