
Compreenda melhor o nosso método de avaliação.
Há alguns filmes
que mexem conosco de uma forma, digamos, pessoal. Este “O Escafandro e a Borboleta”, por exemplo, me remeteu a uma
lembrança bem parecida com a experiência passada pelo protagonista: as
reflexões deste durante o seu período de internação hospitalar. Não, o meu caso
nem passou perto dos problemas que Jean-Dominique Bauby teve
de enfrentar, mas a semana em que fiquei internado no hospital serviu, ao
menos, para que eu pudesse repensar a minha vida e dar mais valor a mesma,
assim como o personagem de Mathieu Amalric o faz neste longa. Tendo em
vista isso, foi impossível eu não criar uma relação pessoal com a obra
magistralmente dirigida por Julian Schnabel.
Ficha Técnica:
Título Original: Le Scaphandre et le Papillon
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 112 minutos
Ano de Lançamento (França / EUA): 2007
Site Oficial: www.lescaphandre-lefilm.com
Estúdio: Pathé Renn Productions / France 3 Cinéma / Canal+ / Région
Nord-Pas-de-Calais / The Kennedy/Marshall Company / C.R.R.A.V. Nord Pas de
Calais / Ciné Cinémas / Banque Populaire Images 7
Distribuição: Miramax Films / Europa Filmes
Direção: Julian Schnabel
Roteiro: Ronald Harwood, baseado em livro de Jean-Dominique Bauby
Produção: Kathleen Kennedy e Jon Kilik
Música: Paul Cantelon
Fotografia: Janusz Kaminski
Desenho de Produção: Michel Eric e Laurent Ott
Figurino: Olivier Bériot
Edição: Juliette Welfling
Elenco: Mathieu
Amalric (Jean-Dominique Bauby), Emmanuelle Seigner (Céline Desmoulins), Marie-Josée
Croze (Henriette Durand), Anne Consigny (Claude), Patrick Chesnais (Dr. Lepage),
Niels Arestrup (Roussin), Olatz Lopez Garmendia (Marie Lopez), Jean-Pierre
Cassel (Lucien / Vendeur Lourdes), Marina Hands (Joséphine), Max von Sydow
(Papinou), Isaach De Bankolé (Laurent), Emma de Caunes (Imperatriz Eugénie), Jean-Philippe
Écoffrey (Dr. Mercier), Nicolas Le Riche (Nijinski), Lenny Kravitz (Lenny
Kravitz) e Michael Wincott (Michael Wincott).
Sinopse: Baseado em fatos reais, “O Escafandro e a Borboleta” narra a vida
de Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric), editor da revista francesa Elle,
após este sofrer um derrame cerebral e, conseqüentemente, ter todos os músculos
de seu corpo paralisados, salvo os músculos que movimentam o olho esquerdo.
Jean-Do (como é chamado intimamente) aproveita o tempo em que se encontra
internado no hospital para refletir sobre a sua vida e logo que aprende a se
comunicar “piscando letras do alfabeto” decide escrever um livro, com a ajuda
de uma enfermeira, narrando esta terrível passagem de sua vida.
Le Scaphandre et le Papillon - Trailer:
Crítica:
Desde que dei início à redação de críticas de Cinema (no intróito de 2.006), sempre mantive o
conveniente costume de avaliar um filme (seja ele qual for) do ponto de vista
artístico. Por este motivo, talvez, tenham me perguntado em um determinado dia qual seria a minha
definição sobre Arte. Confesso ter ficado sem resposta exata a tal pergunta, mas
subjetivamente respondi que Arte era a ferramenta com a qual um artista poderia
demonstrar um sentimento seu tomando por base o mundo em que vive.
E é justamente isso
o que Julian Schnabel realiza neste “O
Escafandro e a Borboleta”, uma obra-prima deveras sensorial, capaz de
captar com maestria os sentimentos de solidão, angústia, vazio, depressão e
medo de um homem que, após sofrer um fortíssimo derrame cerebral, se depara com
os movimentos do corpo todos paralisados, salvo os movimentos de seu olho
esquerdo, que possibilitam com que este possa se comunicar com as demais
pessoas apenas “piscando letras do alfabeto”. Em outras palavras, Schnabel cria
aqui uma verdadeira obra-de-arte.
Realizando um
casamento perfeito entre direção e fotografia, Julian Schnabel e Janusz
Kaminski (respectivamente: diretor e diretor de fotografia do filme) criam um
dos primeiros atos mais inesquecíveis da história do Cinema. Infelizmente, o
roteirista Ronald Harwood não colabora muito quando decide prolongar demais (e
desnecessariamente, diga-se) a primeira parte do filme. Mas antes de citar os
defeitos do longa, peço permissão ao caro leitor para mencionar as qualidades
deste que, certamente, encontram-se em maior número.
Conforme havia
informado acima, o casamento entre direção e fotografia de “O Escafandro e a Borboleta” funciona da
maneira mais perfeita o possível durante o primeiro ato da obra. A fim de
conferir o máximo de naturalidade possível à mesma, Schnabel adota a câmera em
primeira pessoa (a mesma utilizada por Alfred Hitchcock no sensacional “Janela Indiscreta”), assumindo assim os
“olhos” do protagonista, fazendo com que tudo seja exibido ao espectador da
maneira mais verossímil o possível.
Kaminski, por
sua vez, proporciona a nós, sortudos espectadores, uma fotografia que extrapola
os limites da perfeição, alternando entre vários tons de cor, conforme o estado
psíquico e/ou físico em que o protagonista se encontra. Só para mencionar
alguns exemplos, após acordar do derrame cerebral pela primeira vez, a
fotografia toma os devidos cuidados para que o espectador tenha a impressão de
que Jean-Dominique Bauby (protagonista do filme) está com a visão inteiramente
embaçada. Por outro lado, a fim de demonstrar ao espectador que o protagonista
não se mostra capaz de permanecer com o olho aberto por muito tempo, Kaminski vai
proporcionando tons cada vez mais escuros à fotografia conforme Jean-Do “luta”
a fim de evitar com que o seu olho se cerre, demonstrando o quão exaustivo é tal
esforço, caso o mesmo se prolongue por mais do que alguns míseros segundos.
Juliette
Welfling, responsável pela (soberba) edição do longa, também merece ser
aplaudida de pé. Assim como a direção e a fotografia colaboram muito para que o
filme seja altamente impactante, não apenas mantendo a naturalidade da obra,
como também encarnando no espectador todo o sentimento do protagonista, a
edição possui praticamente as mesmas funções e só para que o leitor possa ter
uma idéia do que estou afirmando, durante os minutos iniciais do longa, nas
cenas em que Jean-Do
encontra-se com a memória quase que totalmente baqueada, Welfling emprega
cortes rápidos, a fim de retratar os lapsos memoriais do protagonista.
Infelizmente o
roteiro não se mostra tão eficiente quanto a fotografia, a edição e a direção
do longa se mostram. Não, em momento algum afirmei que o mesmo deixa de ser
excelente, o trabalho de Ronald Harwood apenas não se mostra tão perfeito
quanto o trabalho dos demais artistas envolvidos com a obra. Durante o primeiro
ato (sempre o primeiro ato, mas fazer o quê? Ele é o grande diferencial da
obra), por exemplo, o roteiro parece fazer questão de retratar em demasia o
processo de tratamento de Jean-Do, algo que acaba não contribuindo tanto para a
conclusão da obra. Se Harwood tivesse sido mais objetivo no início do filme e
aproveitado para se aprofundar mais durante o final do mesmo, certamente a
experiência teria sido ainda melhor do que ela já foi.
Para finalizar,
aproveito o gancho do primeiro parágrafo, acerca da pergunta sobre o que vem a
ser Arte, e informo que, da próxima vez que me fizerem tal questionamento, respondê-lo-ei
da seguinte maneira: “___ Assista a “O
Escafandro e a Borboleta” e terá a concepção exata do que vem a ser Arte”.
Avaliação Final:
9,0 na escala de 10,0.
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