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Meu Nome Não é Jhonny
(4 votos)
 

Por Daniel Esteves de Barros, no dia 18-07-2008 00:32

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Compreenda melhor o nosso método de avaliação.

 

Desde que este filme foi aos cinemas de todo o Brasil no início de 2.008 sempre tive muita vontade de assisti-lo, mas fui impossibilitado de fazê-lo. Por que? Em primeiro lugar, moro em uma cidade cuja administração pública (e quero deixar bem claro que não estou criticando a administração pública) não valoriza muito a cultura de sua população local (até mesmo porque esta não faz questão nenhuma de obter cultura e emergir do oceano de frivolidades em que se encontra mergulhada há quase 150 anos), sendo assim, os investimentos para que um lançamento nacional estréie aqui no mesmo dia que nas demais cidades do país inteiro são pífios. Em segundo lugar, quando o filme finalmente estreou nos cinemas da cidade onde resido, eu me encontrava impossibilitado de o fazer, pois estávamos próximos ao Oscar e era imprescindível que eu passasse todo o meu tempo livre dedicando-me a assistir aos principais indicados à premiação mais importante do Cinema. Ironicamente, neste mês de julho, a mesma administração pública que não valoriza tanto a cultura da população local (e, sinceramente, nem deveria, já que jamais obteria retorno) investiu em um projeto alcunhado de “Julho Cultural”, onde, durante todo o mês, os habitantes da cidade poderiam contar com diversas manifestações culturais gratuitas. Dentre tais manifestações culturais temos também a exibição de alguns filmes gratuitos e este “Meu Nome Não é Jhonny” está entre tais filmes. Enfim, realizando um prévio agradecimento à Secretaria da Cultura e Turismo de minha cidade pela oportunidade, dou início a esta crítica.

 

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Ficha Técnica:
Título Original: Meu Nome Não é Johnny
Gênero: Drama
Tempo de Duração:
Ano de Lançamento (Brasil): 2008
Site Oficial: www.meunomenaoejohnnyfilme.com.br
Estúdio: Atitude Produções / Sony Pictures Entertainment / Globo Filmes / TeleImage / Apema
Distribuição: Sony Pictures Entertainment / Downtown Filmes
Direção: Mauro Lima
Roteiro: Mariza Leão e Mauro Lima, baseado em livro de Guilherme Fiúza
Produção: Mariza Leão
Música: Fábio Mondego
Fotografia: Uli Burtin
Direção de Arte: Cláudio Amaral Peixoto
Figurino: Reka Koves
Edição: Marcelo Moraes
Elenco: Selton Mello (João Guilherme Estrella), Cléo Pires (Sofia), Júlia Lemmertz (Mãe de João),
Rafaela Mandelli (Laura), Eva Todor (D. Marly), André di Biasi (Alex), Giulio Lopes (Pai de João), Cássia Kiss (Juíza), Ângelo Paes Leme (Julinho), Orã Figueiredo (Oswaldo), Hossen Minussi (Wanderley), Luís Miranda (Alcides), Gillray Coutinho (Advogado), Kiko Mascarenhas (Danilo), Flávio Bauraqui (Charles), Aramis Trindade (Taínha), Neco Vila Lobos (Carlos), Charly Braun (Felipe), Felipe Martins (Fernando), Roney Villela (Hércules), Wendell Bendelack (Sininho), Ivan de Almeida (Carcereiro), Flávio Pardal (Boneco) e Rodrigo Amarante.

 

Sinopse: João Guilherme Estrella (Selton Mello) é um jovem carioca de classe média que, após envolver-se com as drogas, torna-se altamente dependente das mesmas e, com o propósito de sustentar o vício, torna-se narcotraficante. Conforme o tempo vai passando, Estrella vai se firmando como um dos chefões do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, mas ele mal sabe que a polícia está cada vez mais próxima de capturá-lo.


Meu Nome Não é Jhonny – Trailer:


 

Crítica:

 

O cinema brasileiro, involuntariamente, deu início a uma trilogia sobre as drogas no ano de 2003 com o praticamente perfeito “Cidade de Deus”, passando pelo quase tão perfeito quanto “Tropa de Elite” e encerrando-se em janeiro de 2.008 com este “Meu Nome Não é Jhonny”, cuja avaliação final fica bem aquém à dos longas anteriores, mas ainda assim se revela uma obra cinematográfica bastante interessante. E quando citei na primeira linha deste texto que o cinema nacional havia iniciado tal trilogia de modo involuntário, me referia ao fato de os três filmes coincidentemente debaterem o mesmo tema, sob três perspectivas diferentes e de não possuírem quaisquer ligações comerciais entre si.

 

Para que o leitor possa compreender o quanto a ligação entre os três filmes é inevitável, basta citarmos as perspectivas narrativas dos mesmos. “Cidade de Deus” aborda o problema das drogas sob o ponto de vista de um habitante de uma favela carioca que não possui quaisquer ligações com o narcotráfico, ou seja, uma pessoa neutra. “Tropa de Elite”, por sua vez, aborda o mesmo problema sob o ponto de vista de um policial, enquanto que “Meu Nome Não é Jhonny” o faz através da perspectiva de um narcotraficante. É como se os produtores, diretores e roteiristas tivessem se reunido e combinado em realizar três filmes abordando o mesmíssimo tema, sob três diferentes prismas.

 

Mas o filme dirigido por Mauro Lima conta com algo que o diferencia dos outros dois longas. Aqui, a classe social inserida na marginalidade é a classe média alta, e não a classe baixa, como ocorre em “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. Como não poderia deixar de ser, isto conta muitíssimos pontos a favor do filme protagonizado por Selton Mello, afinal de contas, sabe-se perfeitamente que as drogas, tanto a venda quanto o consumo destas, são um problema social que abrange todas as classes sociais.

 

Iniciando a sua narrativa com a prisão de João Estrella (Selton Mello, em mais uma ótima atuação em sua brilhante carreira), o longa logo se propõe a mudar o seu foco e passa a retratar a infância do narcotraficante de classe média alta. Durante esta parte do filme confesso ter me lembrado do ótimo “Alphadog” quando o personagem de Bruce Willis realiza a seguinte afirmação: “Esta estória não é sobre as drogas ou o mal que elas fazem aos seus usuários e às famílias dos mesmos, esta estória é sobre como se deve criar e educar os filhos.”. E é justamente isso o que vemos nos primeiros quinze minutos da obra, o modo como João fôra educado pelos pais.

 

Sempre mimado pelos responsáveis, tanto afetivamente falando, quanto materialmente, João aparentemente não tinha motivo algum para seguir o estilo de vida que optou seguir. Contudo, havia algo que o incomodava muito em sua família: as constantes brigas dos pais, e foi justamente isto que moldou a sua vida e seu caráter, até mesmo porque, não há nada pior para uma criança do que crescer convivendo com conflitos paternos (eu mesmo cresci assim, de certa forma).

 

João envelhece, conhece as drogas, e, assim como a grande maioria dos traficantes, se vê obrigado a vendê-la para sustentar o próprio vício. É aí que o longa entra em sua parte crucial, a escalada de Estrella no submundo do crime. Apesar de o filme não conseguir retratar tal escalada de um modo tão eficiente e convincente como “Os Bons Companheiros” fez com Henry Hill ou “Scarface” fez com Tony Montana (até mesmo porque seria demais pedir para que o longa o fizesse em um nível tão alto), o roteiro cumpre com o seu papel muitíssimo bem e faz questão de delinear os principais pontos da vida de João Estrella como narcotraficante.

 

Outro ponto marcante do longa de Mauro Lima reside nos alívios cômicos do mesmo. Carregado de piadas excelentes de humor negro, o longa aposta em gags inteligentes, vivenciadas por personagens hilários e originais (como resistir à bizarrice da personagem de Eva Tudor sem cair na gargalhada? Ou então ao carisma da dupla de policiais corruptos?) que ajudam a manter o espectador concentrado durante todo o desenvolvimento dos dois primeiros atos (sobretudo o segundo), que já seriam praticamente ótimos apenas se optassem por retratar o estilo de vida que o protagonista optou por seguir e os males que este trouxe à vida do mesmo, mas ao adotar um humor tão inteligente conforme fôra citado, a primeira e a segunda parte da película se tornam ainda mais interessantes.

 

Eis que o longa caminha para o seu final e os defeitos imperdoáveis deste vêem à tona. Se ao criticar os dois primeiros atos da obra fiz analogias a filmes como o perfeito “Scarface”, o excelente “Os Bons Companheiros” e o ótimo “Alphadog”, ao criticar o terceiro ato de “Meu Nome Não é Jhonny” não me resta outra alternativa a não ser compará-lo com o apenas razoável “Profissão de Risco” (longa estralado por Jhonny Depp, que se mostra uma cópia descarada e mal feita de “Os Bons Companheiros”). É incrivelmente triste observarmos como um filme tão interessante pôde cair em um nível tão baixo durante o seu desfecho. O longa, outrora ousado, realista e sínico, agora se revela moralista, piegas e sentimental. A todo momento podemos sentir a trilha-sonora “mela-cueca” sussurrando e implorando em nossos ouvidos: “___ Jhonny vai se tornar um cara legal, vamos todos torcer por ele”. A obra cinematográfica se torna apelativa e desnecessariamente arrastada.

 

Os demais aspectos também caem, e muito, durante o desfecho da trama. Tomemos por base a direção de Mauro Lima. Durante o longa inteiro, Lima havia se saído muito bem no que diz respeito à condução de elenco, pois todos os atores interpretam otimamente bem os seus respectivos papéis, mas no que diz respeito à movimentação de câmeras, o diretor se mostrou levemente competente, apenas isso. Contudo, no desenrolar deste terceiro ato, é incrivelmente ridículo notarmos a maneira como ele tenta emocionar o espectador fazendo uso de uma direção terrivelmente melodramática. Notem, por exemplo, na maneira nada sutil com que ele realiza um zoom in altamente inconveniente nos personagens de Selton Mello e Cássia Kiss, quando a segunda, uma juíza “dura na queda”, realiza uma pergunta ao primeiro durante um júri, deixando-o completamente sem resposta. Algo típico de novela global.

 

Uli Burtin (diretor de fotografia) também parece ter pouco se importado em realçar mais os tons escuros de sua fotografia durante esta parte do longa, podendo assim passar ao público, de maneira mais convincente, o sofrimento e a angústia do protagonista.

 

Concluindo, “Meu Nome Não é Jhonny” é um filme muito bom, mas que nos dá a sensação de estarmos assistindo a dois filmes de uma única vez. O primeiro filme narra de maneira muito convincente a escalada de um marginal no submundo do narcotráfico, ao passo que o segundo decide retratar a maneira como tal marginal chega ao fundo do poço. O problema é que tal demonstração soa excessivamente moralista, piegas e melodramática, fazendo com que a obra rume a um final previsível e deveras formulaico.

 

Avaliação Final: 7,3 na escala de 10,0.



   
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