Para ser sincero
ao leitor (como sempre costumo ser), não estava com a menor inspiração de
assistir e, muito menos, criticar este “Batman
Begins”, mas haja visto que a seqüência deste longa estréia nos principais
cinemas do Brasil e do Mundo na próxima sexta, não me restou outra alternativa
senão fazê-lo antes da estréia de “The
Dark Knight”, um dos blockbusters mais aguardados desta temporada (senão o
mais aguardado). Ao contrário da grande maioria dos cinéfilos, não aguardo o
próximo filme do homem-morcego com tanto entusiasmo. Os motivos? Bem, creio que
se o leitor ler o meu texto poderá compreender perfeitamente às ressalvas que
possuo contra esta nova saga do mais conhecido cidadão da história de Gotham
City, apesar de reconhecer que este primeiro episódio da nova série possui
muitas qualidades.
Ficha
Técnica:
Título
Original: Batman Begins Gênero: Aventura Tempo de Duração: 134 minutos Ano de Lançamento (EUA): 2005 Site Oficial:http://batmanbegins.warnerbros.com Estúdio: Warner Bros. / Di Bonaventura Pictures Distribuição: Warner Bros. Direção: Christopher Nolan Roteiro: Christopher Nolan e David S. Goyer, baseado em estória de
David S. Goyer e nos personagens criados por Bob Kane Produção: Larry J. Franco, Charles Roven e Emma Thomas Música: James Newton Howard e Hans Zimmer Fotografia: Wally Pfister Desenho de Produção: Nathan Crowley Direção de Arte: Peter Francis, Stuart Kearns, Paul Kirby, Steven
Lawrence, Simon Lamont, David Lee, Shane Valentino e Su Whitaker Figurino: Lindy Hemming Edição: Lee Smith Efeitos Especiais: Double Negative / The Moving Picture Company /
Rising Sun Pictures Elenco:
Christian Bale (Batman / Bruce Wayne), Michael Caine (Alfred Pennyworth), Liam Neeson (Henri Ducard), Morgan
Freeman (Lucius Fox), Gary Oldman (Tenente James Gordon), Ken Watanabe (Ra's Al
Ghul), Katie Holmes (Rachel Dodson), Cillian Murphy (Dr. Jonathan Crane /
Espantalho), Tom Wilkinson (Carmine Falcone), Rutger Hauer (Richard Earle),
Sara Stewart (Martha Wayne), Linus Roache (Dr. Thomas Wayne), Richard Brake
(Joe Chill), Gus Lewis (Bruce Wayne - jovem), Emma Lockhart (Rachel Dawes -
jovem), Colin McFarlane (Comissário Gillian Loeb), Barry Dowden (Detetive
Flass), Larry Holden (Carlton Finch), Lucy Russell (Susan) e Christina Adams
(Jessica).
Sinopse: Após presenciar o assassinato
de seus pais enquanto ainda criança, o milionário Bruce Wayne (Christian Bale)
passa a dedicar a sua vida ao estudo do crime organizado, a fim de adquirir
experiência o suficiente para combater o mesmo. Para isso, ele viaja o mundo
inteiro e acaba se envolvendo com uma organização secreta de ninjas justiceiros
que visam reduzir a criminalidade mundial. Após ser minuciosa e intensamente
treinado por Duncan (Liam Neeson), Wayne regressa à sua cidade natal e decide
por fim às organizações criminosas que tomam conta da mesma. Para isso, ele
cria uma idêntidade secreta: o Batman e é através desta que o rapaz passa a
amedrontar e combater os bandidos de Gotham City.
Batman Begins – Trailer:
Crítica:
Indo na
contramão dos episódios da saga anterior, este “Batman Begins” optou por ser o mais fiel o possível às HQs (apesar
de divergir da mesma em determinados aspectos) e de dar muito mais ênfase à
personalidade de Bruce Wayne e o modo como este veio a se tornar o maior
símbolo da história da fictícia cidade de Gotham City (uma Nova York muito mais
escura e tomada pelo crime organizado), bem como os motivos que o levaram a
criar a imagem do homem-morcego a fim de aterrorizar os seus inimigos. “___ E isso é bom?” ___ Me pergunta o
leitor. “___ Depende.” ___ Respondo
eu.
Se por um lado a
caracterização do protagonista deste “Batman
Begins” é realizada de um modo que torna o personagem muito mais humano e
próximo ao público, por outro lado ela tira todo o mistério criado em cima do
mesmo, este que era um dos maiores charmes da saga anterior. Não que o
cavaleiro das trevas não seja misterioso nesta nova saga que se iniciou em
2.005, mas o bem da verdade é que, ao menos nesse quesito, o presente longa
fica bem aquém aos filmes dirigidos por Tim Burton.
Da mesma forma
que a caracterização de Batman/Bruce Wayne (Christian Bale, em boa atuação)
alterna entre altos e baixos, os demais aspectos deste filme perambulam pelo
mesmíssimo caminho. Tomemos por base o primeiro ato da obra, quando o roteiro
opta por narrar a história sob duas perspectivas amplamente diferentes. Na
primeira, vemos Wayne iniciando um treinamento no Tibet (ou seria no Himalaia?
Ou no Nepal? Enfim, a localização é o de menos...) em meio a um grupo de ninjas
justiceiros que almejam reduzir consideravelmente o índice criminal mundial.
Até então, tudo
é perfeito e funciona às mil maravilhas, tanto por parte da narrativa do longa,
quanto pela parte técnica do mesmo. O problema surge quando a estória
supracitada passa a se entrelaçar com uma outra: a estória onde ficamos à par
do passado de Bruce Wayne. A partir daí somos obrigados a presenciar um
festival de estereótipos insuportáveis, que variam desde a melhor amiga de
infância de Bruce, que futuramente se tornará namorada do mesmo, até a
benevolência exacerbada do pai do garoto (que gasta muito dinheiro apenas para
fazer o bem e, ainda assim, em uma ironia que somente o Cinema é capaz de nos
proporcionar, continua multimilionário), passando, é claro, pelo mordomo, cuja
fidelidade é inquestionável.
Mas o filme se
desenvolve e, junto com ele, seu roteiro também. Somos apresentados aos vilões
do longa, primeiramente, o gangster Falcone, posteriormente, o psiquiatra Dr.
Crane, vulgo Espantalho (sim, ele mesmo) e, por fim... bem, este terceiro vilão
é melhor manter oculto para não estragar as surpresas de quem ainda não tenha
assistido ao longa. Eis que o leitor me pergunta: “___ Três vilões?! Mas o filme consegue explorar todos os três de
maneira conveniente?” e eu respondo: “___
Sim, consegue! E este é um dos maiores acertos do mesmo!”.
O modo como o
roteiro alterna os seus antagonistas é extremamente sutil e natural. É como se
tudo seguisse uma seqüência. Seqüência esta que parece ter sido cuidadosamente
arquitetada pelos roteiristas Christopher Nolan (que também assina como diretor
do filme) e David S. Goyer com o intento de preparar o espectador para as
cosntantes mudanças de vilão do filme, sem que este fique na incomoda sensação
de que o antagonista anterior fôra bruscamente substituído por um outro mais
importante e mais perigoso.
A maior
qualidade deste “Batman Begins”, no
entanto, fica por conta de sua estória incrivelmente inteligente e bem
trabalhada, que consegue a façanha de criar elos a elementos de difíceis ligações,
tais como uma liga de ninjas justiceiros, uma droga altamente alucinógena que
desperta medo em quem ela é utilizada e um equipamento capaz de evaporar a água
de uma cidade inteira. O mais surpreendente é vermos que, mesmo demonstrando
total capacidade para ligar os elementos supracitados, o roteiro ainda consegue
explorar o seu protagonista e os demais personagens de maneira deveras
satisfatória.
Contudo, o mesmo
roteiro que se mostra responsável pela maior parte das qualidades do filme,
ironicamente se revela igualmente responsável pela maior parte dos defeitos do
longa dirigido por Christopher Nolan. Gostaria que o leitor me respondesse
rápido: “___ Qual é o maior defeito que
um filme feito com o principal objetivo de divertir o seu público alvo pode
possuir?”. “___ Não conseguir divertí-lo.” ___ Me responde prontamente o
leitor. Corretíssimo, e é justamente esse o maior problema com “Batman Begins”: a incapacidade de nos
divertir, seja mediante suas seqüências de ação, seja mediante seus alívios
cômicos (estes últimos, carregados de gags
para lá de batidas, diga-se).
Falando nas
seqüências de ação, além de pouquíssimas, estas não apresentam absolutamente
nada de novo e, o que é pior, se mostram incapazes de transmitir ao público
qualquer tipo de emoção ou tensão. Para complicar ainda mais a situação,
Cristopher Nolan demonstra ter uma “mão demasiadamente pesada” para dirigir
tais seqüências, tonando-as ainda mais enfadonhas do que já são por si só (o
que é uma pena, pois o diretor havia demonstrado bastante talento nas condições
das demais cenas do longa), e a fraca e nada empolgante trilha-sonora torna a
experiência ainda mais frustrante.
Para concluir e
resumir tudo em um único parágrafo, diria que o cuidado que “Batman Begins” teve ao desenvolver os
seus personagens (salvo quando o mesmo apela aos estereotipos previamente
citados) e, principalmente, a sua estória, não teve ao entreter e cativar o seu
público alvo. E levando-se em conta que o filme de Nolan é uma assumida
sessão-pipoca, o simples fato de não se revelar capaz de empolgar o espectador
pode ser encarado como um crime inafiançável, ou um pecado mortal.