Tendo em vista a
imensidão da crítica que redigi, desta vez (teve 2.009 palavras contra as
aproximadamente 700 ou 800 que meus textos costumam ter), serei o mais breve o
possível nesta pré-crítica. Muito tem se falado do sucesso de bilheteria que
este “O Cavaleiro das Trevas” vem
alcançando recentemente e, sempre que um fenômeno comercial desta magnitude
ocorre eu gosto muito de comentar se o filme em questão merece tanto esplendor
ou não. Pois no caso desta continuação de “Batman
Begins” eu digo que merece, e muito, não apenas possuir uma bilheteria
extremamente lucrativa, como também entrar para o ranking das três maiores bilheterias da história do Cinema,
superando até mesmo o ótimo “Piratas do
Caribe – O Baú da Morte”.
Ficha Técnica: Título
Original: The Dark Knight Gênero: Aventura Tempo de Duração: 142 minutos Ano de Lançamento (EUA): 2008 Site Oficial:http://thedarkknight.warnerbros.com Estúdio: Warner Bros. Pictures / Legendary Pictures / DC Comics /
Syncopy Distribuição: Warner Bros. Direção: Christopher Nolan Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan, baseado em estória de
Christopher Nolan e David S. Goyer e nos personagens criados por Bob Kane Produção: Christopher Nolan, Charles Roven e Emma Thomas Música: James Newton Howard e Hans Zimmer Fotografia: Wally Pfister Desenho de Produção: Nathan Crowley Direção de Arte: Mark Bartholomew, James Hambidge, Kevin Kavanaugh,
Simon Lamont, Naaman Marshall e Steven Lawrence Figurino: Lindy Hemming Edição: Lee Smith Efeitos Especiais: Double Negative / BUF / Gentle Giant Studos / New
Deal Studios
Sinopse:Após dois
anos desde o surgimento do Batman (Christian Bale), os criminosos de Gotham
City têm muito o que temer. Com a ajuda do tenente James Gordon (Gary Oldman) e
do promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart), Batman luta contra o crime
organizado. Acuados com o combate, os chefes do crime aceitam a proposta feita
pelo Coringa (Heath Ledger) e o contratam para combater o Homem-Morcego.
The Dark Knight - Trailer:
Crítica:
“O Cavaleiro das Trevas” revelou-se um
filme tão perfeito em sua totalidade que fica até difícil escolher por onde
começo a redigir este texto. Não sei quais aspectos da obra deveria comentar
primeiro, já que todos mantêm um equilíbrio tão forte entre si que torna-se
praticamente impossível priorizar um. Pois é, pelo jeito terei de fazer algo
que não estou nem um pouco acostumado a fazer e me render aos apelos do mainstream, ou seja, terei de começar
analisando aquilo que todos almejam saber: qual Coringa é o melhor, o de Ledger
ou o de Nicholson?
Incrível ver
como o falecimento do ator australiano em janeiro do corrente ano colaborou, de
uma maneira estranhamente macabra, para a promoção do filme. A fim de
testemunhar a última atuação da carreira deste jovem grande talento do cinema
contemporâneo, espectadores do mundo inteiro, mesmo os que não se mostram fãs
do Homem-Morcego, fizeram filas imensas às portas dos cinemas. Até mesmo em uma
roda entre cinéfilos o assunto não é outro, a não ser: o Coringa de Heath
Ledger e a sua respectiva atuação. É mister, ao comentar sobre Cinema, que se
mencione o nome do jovem ator talentoso falecido no intróito deste ano. Mas
enfim, pondo as tergiversações de lado e respondendo à pergunta que não quer
calar, o melhor coringa é o de... bem, vejamos... depende. Sim, sei muito bem que
esta é a resposta de praxe de todo indivíduo que almeja “sair pela tangente”
(como está sendo o meu caso agora), mas esta é a pura realidade.
Se analisarmos
em termos de atuação, Ledger vence na interpretação de uma maneira geral, mas
perde em termos de carisma. Contudo, devemos levar em conta que o novo Coringa
está muito além de ser um vilão simpático (conforme ocorreu com o personagem de
Nicholson no filme de 1989), muito pelo contrário, aqui, o roteiro almejou
criar um vilão assustador, doentio, psicótico, insano ao extremo. Em outras
palavras, um personagem mais plausível de ser absorvido em um contexto real
(minha frase predileta), principalmente se tomarmos como cenário os Estados
Unidos da América, pós 11 de setembro de 2001.
Finalizando esta
analogia entre os personagens de Nicholson e Ledger, diria que se o segundo não
é tão original quanto o primeiro (sim, pois este não possui as bugigangas
peculiares daquele, tais como: um saquinho de dar risadas, balões cheios de
gases venenosos, um tônico que estica os lábios de quem os toma, dando a
impressão de que a vítima está sorrindo), ao menos ele se mostra um vilão muito
mais convincente e assustador, além de possui uma carga dramática infinitamente
superior àquele, o que o torna ligeiramente superior ao Coringa do filme de Tim
Burton.
E quanto à
atuação de Ledger, é tudo isso o que estão comentando? Bem, Ledger encarna o
personagem com maestria e confere uma fortíssima carga dramática ao mesmo, mas
discordo completamente do que o diretor Christopher Nolan afirmou durante uma
entrevista, onde mencionava que o ator australiano faz uma atuação tão
cativante quanto a que Jack Nicholson realizara em “Um Estranho no Ninho”. O ator, é claro, mostra um talento bem acima
da média durante a sua composição, tornando o seu personagem ainda mais real e
marcante do que ele já seria por si só.
A fim de
conferir total verossimilhança ao seu Coringa, Ledger adota maneirismos que
condizem plenamente com o estado psicológico do vilão, sem apelar a clichês e a
trejeitos artificiais. Note, por exemplo, as alterações constantes de tom de
voz do ator (fato que nos remete à lembrança de uma pessoa com forte grau de
insanidade), e na dificuldade que este encontra em fixar seu olhar em um
determinado objeto ou pessoa, o que indica o quão perturbado é o personagem.
Contudo, o ápice
da atuação de Ledger reside quando este contracena com Christian Bale, que, por
sinal, teve uma evolução artística muito notável do filme anterior, onde já
havia realizado um trabalho seguro, para este segundo episódio. A seqüência em que Batman interroga o
seu arqui-rival é, provavelmente, a que exige um maior esforço de Ledger, pois
é durante esta parte do longa que o ator necessita mesclar loucura, medo e
sarcasmo, todos os três ingredientes na medida certa, para que a composição de
seu personagem soe certeira de acordo com os sentimentos que está vivenciando naquele
momento.
Outro aspecto da
obra que tem sido muito comentado são as ideologias de cada um dos personagens
de “O Cavaleiro das Trevas” e não é
para menos. Todos (todos mesmo) os personagens do filme em questão possuem uma
ideologia, desde o mais revolucionário ao mais reacionário, e isto tudo torna o
roteiro muito mais complexo (e falo isso positivamente, é claro). Harvey Dent
(futuro Duas-Caras), por exemplo, é um promotor público conservador e que crê
no sistema como um agente neutralizador do crime. Entretanto, durante o
desenrolar da película, o próprio sistema em que ele tanto confiava acaba
traindo-o, tirando-o tudo o que mais lhe era importante na vida e isso acaba
fazendo com que ele mude completamente a sua personalidade (e vale ressaltar
que o roteiro aborda tal mutação da maneira mais natural o possível).
Batman, por sua
vez, segue uma ideologia que, de certa forma, se revela altamente reacionária.
E é inegável que um dos maiores acertos do longa resida justamente na
construção do alter ego do jovem milionário Bruce Wayne. Longe de ser um
super-herói tão politicamente correto quanto o patético Superman, ou tão
estoicista quanto o ótimo Homem-Aranha, Batman explicita neste longa todo o seu
lado obscuro de uma maneira jamais vista anteriormente. A fim de obter
informações que o levem à captura de perigosos marginais ou ao salvamento de
pessoas indefesas, o cavaleiro das trevas não hesita em esmurrar a face de uma
pessoa que não possua quaisquer chances de revide, ou arremessar esta mesma
pessoa contra a parede, ou ainda jogar uma outra pessoa do quarto andar de um
prédio quebrando-lhe as duas pernas com o único propósito de intimidá-la. Em
outras palavras, o famoso super-herói (herói?) adota neste longa uma postura maquiavélica:
“os fins justificam os meios”.
Outro ponto
forte do caráter de Batman abordado aqui são as crises existenciais deste,
posteriores a um trágico acontecimento que ocorre no início do terceiro ato da
trama. E falando em terceiro ato e desenvolvimento do protagonista, a atitude
(que não irei revelar qual é, por razões óbvias) que o Homem-Morcego toma no
final deste longa é algo digno dos mais fortes aplausos, pois dramatiza ainda
mais o personagem e a estória desenvolvida acerca deste.
E, por fim,
voltemos ao Coringa. Sim, eu sei, já abordei demasiadamente este personagem no
intróito deste texto, mas a verdade é que não há meios de definir e/ou
descrever um personagem tão importante apenas com os adjetivos supracitados.
Carregado de um forte humor negro (muito bem empregado diga-se. Notem a cena do
lápis, logo no início da película) e uma dramatização intelectual de fazer
inveja a qualquer vilão de histórias em quadrinhos, a caracterização do
arqui-rival do Homem-Morcego pode se equiparar, sem medo de fazer analogias
exageradas e/ou desmedidas, a personagens importantíssimos da história do
Cinema, como por exemplo, Tyler Durden e Alex De Large. E levando-se em conta
que o Coringa deste “O Cavaleiro das
Trevas” se revela um verdadeiro agente do caos, a analogia entre este e os
protagonistas dos sensacionais “Clube da
Luta” e “Laranja Mecânica” (ambos
fazem parte de meu “Top 10 - Melhores
Filmes de Todos os Tempos”), torna-se mais do que pertinente.
O roteiro também
acerta a mão ao não deixar claro os motivos que levam o antagonista a agir de
tal modo, adotando esta filosofia anarco-niilista como estilo de vida. Ao invés
de amarrar as pontas, o que soaria muito formulaíco, o roteiro brilhantemente
bem escrito pelos irmãos Cristopher (que também assina como diretor da obra) e
Jonathan Nolan opta por deixar que o público o faça. À primeira vista, temos a
impressão de que Coringa tivera uma infância sofrida, vira o pai violentar a
mãe e cortar-lhe a face com uma faca, mas a película se desenvolve e outras
novas hipóteses completamente diferentes desta anterior nos são apresentadas,
fazendo com que não saibamos ao certo o que o levou realmente a se tornar o que
é, fato que o torna ainda mais misterioso.
A maior
qualidade deste “O Cavaleiro das Trevas”,
no entanto, reside no embate, tanto psicológico quanto físico, entre herói e
vilão. A direção de Nolan se mostra sensível o bastante para conferir ao
espectador muita tensão com tal embate desde o começo do filme, quando somos
apresentados a um audacioso assalto a banco, arquitetado pelo vilão mor desta
obra cinematográfica. Daí em diante, temos uma disputa entre o Homem-Morcego e
seu arqui-rival que muito nos remete aos duelos travados entre personagens
importantíssimos da história da Literatura, tais como Sherlock Holmes e
Professor Moriart, e da história do Cinema também, como é o caso entre Vincent
Hannae
Neil McCauley no interessante “Fogo
Contra Fogo”.
Presenteando o
público com dois personagens inteligentíssimos, o filme, como já fôra
mencionado, firma seu destaque no confronto entre Batman e Coringa. Quando não
contamos com as cenas de ação que, ao contrário de “Batman Begins”, são sensacionais, tensas, eletrizantes e muitíssimo
bem dirigidas por Cristopher Nolan, alem, é claro, de serem regadas por uma
trilha sonora fascinante que aumenta ainda mais o clima de tensão das mesmas, o
roteiro nos brinda com um embate psicológico ainda mais tenso entre ambos os
personagens.
O indivíduo que
afirmar que o embate entre herói e vilão é não menos que sensacional deve ter a
sua sanidade questionada. Não tem como não ficarmos tensos e roendo as unhas
durante o filme todo (sem exagero, o clima de tensão está ali presente do
primeiro ao último segundo de projeção) com cenas como a que o, desde já
memorável e imortalizado, personagem de Heath Ledger arquiteta e põe em prática
um assalto a banco (logo no começo da película), ou a seqüência incluída no
final do longa onde ele planeja a explosão de um navio carregado de pessoas e,
principalmente, a maneira como o vilão prepara a sua fuga da prisão (a propósito,
se o leitor havia achado inteligentíssima a cena em que Magneto foge da
prisão em “X-Men II”, prepare-se para
a ainda mais inteligente e bem arquitetada fuga que Coringa realiza neste
longa).
Batman também não fica muito atrás no que diz
respeito à inteligência. Se por um lado o vilão tem sempre um plano mirabolante
em mente, o herói possui sempre um “antídoto” para os mesmos, e o fato deste
“contragolpe” nem sempre funcionar da maneira esperada, faz com que o
protagonista do filme se torne mais humano, devido à sua visível e claudicante vulnerabilidade,
o que não pode deixar de contar pontos para a avaliação final da película.
Por fim, como venho
me acostumando ao redigir os últimos textos de minha autoria, aproveitarei este
parágrafo de encerramento para condensar tudo o que fôra supracitado até então.
“O Cavaleiro das Trevas” é, desde já,
uma incontestável obra-prima do Cinema mundial e merece todo o sucesso que vem
fazendo até o presente momento. Muito superior à grande maioria das adaptações
de histórias em quadrinhos, este longa se revela uma agradabilíssima surpresa,
respeitando imensamente o espectador, fugindo da grande maioria dos clichês e
estereótipos do gênero e, o que é melhor, inovando o mesmo, nos apresentando a
personagens completamente bem desenvolvidos pelo roteiro. A ação é
estarrecedora e cresce ainda mais graças à extraordinariamente competente
direção de Christopher Nolan e à cativante e tensa trilha-sonora composta
magistralmente por, ninguém mais, ninguém menos, que Hans Zimmer e James Newton
Howard. E mesmo com tantas qualidades visíveis e explicitadas, “O Cavaleiro das Trevas”, assim como o
seu antagonista, possui uma carta na manga, que vem a ser sua maior qualidade:
o embate, sobretudo psicológico, entre vilão e herói, além de nos propiciar
questionamentos sobre a situação caótica que a sociedade capitalista se
encontra.