Assisti a este
filme, junto de um amigo meu, durante este último mês de julho enquanto
encontrava-me de férias universitárias. Segundo este meu amigo, o filme era
obrigatório a todas as pessoas que se dizem apaixonadas por Direito Processual
Civil (o que não é o meu caso, já que faço curso de Direito, mas confesso não
nutrir a menor paixão pelo mesmo, diferentemente dele que cursa e ama
incondicionalmente a matéria) e por Jornalismo (este sim um curso que me atrai
muito mais e passará a ser prioridade minha assim que encerrar a faculdade de
Direito). Enfim, locamos o filme e durante uma noite de terça assistimos ao
mesmo. Confirmei que o longa era realmente quase tão sensacional quanto ele
afirmara, com a diferença de que não achei-o perfeito, conforme o leitor poderá
conferir no texto a seguir.
Ficha Técnica: Título
Original: Good Night, and Good Luck Gênero: Drama Tempo de Duração: 93 minutos Ano de Lançamento (EUA): 2005 Site Oficial:www.goodnightandgoodluck.com Estúdio: Warner Independent Pictures / 2929 Productions / Redbus
Pictures / Section Eight Ltd. / Metropolitan / Participant Productions /
Davis-Films / Tohokashinsha Film Company Ltd. Distribuição: Warner Bros. Direção: George Clooney Roteiro: George Clooney, baseado em roteiro de Grant Heslov Produção: Grant Heslov Fotografia: Robert Elswit Desenho de Produção: James D. Bissell Direção de Arte: Christa Munro Figurino: Louise Frogley Edição: Stephen Mirrione Elenco: David Strathairn (Edward R.
Murrow), Robert Downey Jr. (Joe
Wershba), Patricia Clarkson (Shirley Wershba), Ray Wise (Don Hollenbeck), Frank
Langella (William Paley), Jeff Daniels (Sig Mickelson), George Clooney (Fred
Friendly), Tate Donovan (Jesse Zousmer), Thomas McCarthy (Palmer Williams), Matt
Ross (Eddie Scott), Reed Diamond (John Aaron), Robert John Burke (Charlie Mack),
Grant Heslov (Don Hewitt), Alex Borstein (Natalie) e Rosie Abdoo (Millie
Lerner).
Sinopse: Edward R. Morrow (David
Strathairn) é um âncora de TV que, em plena era do macarthismo, luta para
mostrar em seu jornal os dois lados da questão. Para tanto ele revela as
táticas e mentiras usadas pelo senador Joseph McCarthy em sua caça aos supostos
comunistas. O senador, por sua vez, prefere intimidar Morrow ao invés de usar o
direito de resposta por ele oferecido em seu jornal, iniciando um grande
confronto público que trará consequências à recém-implantada TV nos Estados
Unidos.
Good Night and Good Luck – Trailer:
Crítica:
Filmes do tipo “Boa Noite e Boa Sorte” representam o estilo
de filme que eu mais detesto criticar. Assim como “Forrest Gump – O Contador de Estórias”, “Chinatown” e “Nascido Para
Matar”, este longa bem dirigido por George Clooney não possui um defeito propriamente
dito, mas ainda assim não pode ser rotulado como “perfeita obra-prima” (apesar
de eu reconhecer que ele possa ser rotulado como uma “pequena obra-prima”, mas
nada além disso). Sei que está soando exacerbadamente paradoxal de minha parte
afirmar que um filme, apesar de não possuir defeitos, não poder ser considerado
perfeito, mas foi a estranha sensação que tive ao assistir a este “Boa Noite e Boa Sorte” e, sinceramente,
não há sensação que me cause mais incômodo na condição de crítico de Cinema do
que esta.
“Boa
Noite e Boa Sorte” é um filme dificílimo de ser analisado, principalmente
na pele de um brasileiro que não está completamente a par dos acontecimentos
que se sucederam na época (e mesmo pesquisando bastante a respeito do
protagonista do longa (encontrei, inclusive, no site Wikipédia, um texto em inglês e de
seis páginas de Word (ou Open Office, caso o usuário utilize o Linux como
Sistema Operacional) sobre a vida deste), não obtive tanta informação quanto
gostaria de ter obtido a fim de me possibilitar um prévio conhecimento de causa
antes de analisar o filme em si (algo que sempre faço antes de assistir a um
filme histórico, ou uma biografia, como é o caso desta obra). E falando nisso,
talvez seja este o maior, ou provavelmente o único, problema com o filme: o
fato de seu foco estar voltado mais aos seus contemporâneos do que ao restante
da população mundial.
Sim, da mesma
forma como “Forrest Gump – O Contador de
Estórias” (que em uma grande ironia citei no intróito deste texto) se
mostra um filme voltado mais à população estadunidense (já que o restante da
população mundial não conhece, necessariamente, a estória daquele país
asqueroso nos mínimos detalhes), “Boa
Noite e Boa Sorte” conta com a mesma falha: se revela um filme feito de
estadunidenses para estadunidenses. “___
Mas qual o problema nisso?” ___ Me pergunta o leitor. O problema é que o
longa não conseguiu definir o seu público alvo. “Boa Noite e Boa Sorte” foi um filme vendido para o mundo todo, só
que o roteiro esqueceu-se de que pouquíssimas pessoas têm um prévio
conhecimento da estória que irá abordar, sendo assim, o filme simplesmente arremessa
o espectador na trama e proporciona duas opções a este: ou ele se familiariza
com a mesma (que no meu caso, acabou dando certo, pois adoro jornalismo
político (conforme citei na pré-crítica) e já havia tido um prévio, embora não
suficiente, estudo sobre o protagonista) ou simplesmente desiste de tentar
compreender o que está assistindo, o que é uma pena, tendo em vista que o filme
é extraordinário.
Explicando o meu
raciocínio de maneira exemplificada, diria que o longa não faz como “Tróia” (e confesso ser uma heresia
comparar uma porcaria épica destas com o sensacional longa de George Clooney,
mas a analogia torna-se necessária aqui), por exemplo, onde temos uma prévia
explicação antes do intróito do filme sobre o que se passava naquela época e os
motivos pelos quais os personagens do filme encontravam-se naquela situação.
Talvez o roteiro deste “Boa Noite e Boa
Sorte”, apesar de ser voltado a um público mais intelectual ao de “Tróia”, devesse ter realizado algumas
explanações sobre o período em que os Estados Unidos da América se encontrara
naquela época: a caça às bruxas organizada pelo repugnante senador do estado do
Wisconsin: Joseph McCarthy e à maneira como Edward R (‘R’ de Roscoe) Murrow
conduziu uma série de reportagens e comentários que conduziram à cassação do
mandato do mesmo.
Traçando um
perfeito paralelo à situação em que os Estados Unidos se encontravam na época de
seu lançamento (refiro-me à impossibilidade de um estadunidense ir de encontro
aos ideais de um dos piores presidentes da história dos Estados Unidos da
América, o incompetente George W. Bush, e ser alcunhado de simpatizante do
terrorismo), o longa merece ser aplaudido de pé por trazer à tona a polêmica
discussão entre o senador e o jornalista supracitados. E por mais fria que seja
a postura adotada pelo longa a fim de retratar tal disputa (afinal de contas, a
obra não poderia, sob hipótese alguma, deixar de ser parcial), não há como não
se empolgar com o mesmo, principalmente quando este se volta às críticas que
Murrow realiza contra McCarthy em seu programa See It Now e o roteiro magnificamente bem escrito por George
Clooney, baseado em um outro roteiro composto por Grant Heslov, se mostra
imprescindível para a elaboração de tal teor político da trama, já que os
diálogos por ele apresentados são secos, ríspidos, ácidos e altamente aprofundados,
além de realçarem bastante a tensa discussão política sugerida.
Mas as
qualidades do roteiro não se resumem apenas aos diálogos entre os personagens
do longa, ou aos monólogos proferidos por Murrow, ou ainda ao forte clima de
tensão política abordada aqui. O trabalho de Clooney como roteirista também
prima por explorar o seu protagonista da maneira mais eficaz o possível,
abordando Murrow da maneira como ele realmente era: um sujeito extremamente
sério, comprometido com o serviço, intrépido e um apaixonado pela defesa dos
direitos cívicos.
A atuação de David Strathairn como Edward R.
Murrow também não poderia ser mais concisa e real. Adotando aqui uma composição
que muito me remeteu à frieza de Al Pacino como Michael Corleone em “O Poderoso Chefão – Parte II” e à
facilidade de disparar diálogos ásperos de Humphrey Bogard em “Casablanca”, encarnando o papel de
Richard Blane, o californiano Strathairn realiza uma atuação mágica, fazendo
jus à indicação ao Oscar® de Melhor Ator em 2005. As demais atuações também são
soberbas, em especial o ótimo Robert Downey Jr. como Joe Wershba.
George Clooney,
como diretor, também se mostra eficiente e, apesar de não criar nenhum ângulo
fantástico com as câmeras ou de não realizar nenhuma movimentação realmente
satisfatória com as mesmas, o astro do Kentucky realiza um trabalho firme e
consistente, seguindo bem de perto o roteiro que fôra concebido por ele mesmo. Conseguindo
nos remeter todo o clima de angústia presente na época (entre outubro de 1953 e
maio de 1954), causado, sobretudo, por dois fatores: a opressão que o projeto “Caça às Bruxas”, liderado por Joseph
McCarthy, impusera às pessoas que iam de encontro aos ideais do senador e à
falta de liberdade de expressão que a imprensa tinha na época, Clooney utiliza
diversos artifícios extremamente eficazes a fim de mergulhar o espectador
dentro do filme, dentre os quais destaco a angustiante fotografia preto e
branco (algo que eu detesto quando é utilizada em filmes contemporâneos, mas
neste caso caiu muitíssimo bem de acordo com a proposta do longa).
O grande
destaque da produção, contudo, fica por conta da maneira como o mesmo opta por
abordar à importância que um jornalismo realmente competente possui para a
política do país e o modo como a ausência deste colabora negativamente com o
progresso de uma nação. Através de uma direção detalhista e de um roteiro bem
explorado, “Boa Noite e Boa Sorte”
apresenta fortes críticas às frivolidades jornalísticas que são apresentadas
com o intento de alienar o público (não sei porque, mas lembrei-me do programa
“Fantástico” agora. Por que será?) e
à dificuldade que um profissional disposto à apresentar um jornal de
credibilidade sofre diante de uma sociedade fútil e consumista (repare nas cenas
em que o longa nos apresenta a Murrow tendo de comandar um programa
extremamente leviano, à lá “TV Fama”,
a fim de obter recursos financeiros com este e poder produzir o politizado “See It Now”. Fazendo uma analogia mais
palpável de ser absorvida em nossos cotidianos, Murrow fazia a mesma coisa que
o excelente Paulo Henrique Amorim realiza atualmente como profissional:
apresenta um programa fútil na Record (com um carisma peculiar, diga-se) a fim
de poder financiar o jornalismo inteligente abordado em seu excelente site: o
“Conversa Afiada”).
Em suma, “Boa Noite e Boa Sorte” é um filme
independente de curtíssimo orçamento (US$ 7,5 milhões) e que em um curtíssimo
prazo de duração (93 minutos) conseguiu a façanha de se mostrar eficaz e
detalhista o bastante a fim de retratar todo um embate político ocorrido entre
um gigante das comunicações e um outro gigante da política, resultando,
inclusive, na cassação do mandato deste como senador. George Clooney realiza
uma direção discreta, embora eficiente, o roteiro do longa aborda toda a crise
vivenciada durante a época, incluindo a total falta de liberdade de expressão,
sobretudo de imprensa e David Strathairn encarna Edward Roscoe Murrow de um
modo magistral, merecendo, e muito, a indicação ao Oscar de Melhor Ator que
obteve em 2005. Infelizmente o longa conta com um defeito (e sinceramente, não
sei se posso chamá-lo de defeito): a dificuldade que o mesmo tem em
familiarizar o público com a estória, já que torna-se altamente recomendável
que o mesmo tenha um razoável conhecimento sobre os personagens que compõe a trama.
No mais, temos aqui um excelente filme e uma aula de jornalismo verdadeiro e
lição cívica.