Pois é, sei
muito bem que este primeiro episódio da saga “Star Wars” está longe de ser um clássico absoluto da Sétima Arte,
ao contrário dos episódios IV, V e VI que são um marco na história da mesma,
mas decidi postar a crítica deste longa (e as dos outros dois episódios que
acompanham esta nova trilogia filmada nos anos de 1.999, 2.002 e 2.005) na
subseção de “filmes clássicos” acreditando ser interessante manter as análises
de todos os seis filmes bem próximas uma da outra. Quanto à atitude que me
levou a analisar todos os seis filmes, esta reflete a quatro fatores. Primeiro:
adquiri recentemente a tão falada edição comemorativa de 30 anos de lançamento
do quarto episódio da série e decidi, é claro, assisti-la o quanto antes, só
que para isso achei que seria interessante assistir aos episódios iniciais,
fazendo-o na ordem cronológica, e não na ordem de lançamento; segundo: a
animação “Star Wars – Guerras Clônicas”
estréia nos cinemas do Brasil muito em breve (próximo dia 15), nada mais
conveniente então do que entrarmos no mágico clima “Guerra nas Estrelas”; terceiro: nunca critiquei nenhum dentre os
seis filmes da saga em toda a minha vida; quarto e último: sou fã incondicional
da saga e torna-se vergonhoso, na condição de crítico de Cinema, nunca ter analisado
a mesma, portanto, é uma obrigação moral a minha fazê-lo agora.
Ficha
Técnica:
Título
Original: Star Wars - Episode 1: The Phantom Menace Gênero: Aventura/Ficção Científica Tempo de Duração: 131 minutos Ano de Lançamento (EUA): 1999 Site Oficial: www.starwars.com/episode-i Estúdio: LucasFilm Ltda. Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation Direção: George Lucas Roteiro: George Lucas Produção: Rick McCallum Música: John Williams Direção de Fotografia: David Tattersall Desenho de Produção: Gavin Bocquet Direção de Arte: Phil Harvey, Fred Hole, John King, Rod McLean e Ben
Scott Figurino: Trisha Biggar Edição: Ben Burtt e Paul Martin Smith Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic Elenco: Liam Neeson (Qui-Gon Jinn), Ewan
McGregor (Obi-Wan Kenobi), Natalie Portman (Padmé), Jake Lloyd (Anakin
Skywalker), Ian McDiarmid (Senador Palpatine/Darth Sidious), Pernilla August
(Shmi Skywalker), Keira Knightley (Rainha Amidala), Oliver Ford Davies (Sio
Bibble), Hugh Quarshie (Capitão Panaka), Ashmed Best (Jar Jar Bink) (voz), Anthony
Daniels (C3PO), Kenny Bater (R2D2), Frank Oz (Yoda) (voz), Terence Stamp
(Chanceler Finis Valorum), Andrew Secombe (Watto) (voz), Ray Park (Darth Maul),
Samuel L. Jackson (Mace Windu), Sofia Coppola (Saché) e Dominic West.
Sinopse: Após sofrer um forte boicote
econômico por parte da gananciosa Federação Comercial, o planeta Naboo solicita
a ajuda do bravo cavaleiro Jedi Qui-Gon Jinn (Liam Neeson) e seu jovem aprendiz
Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) para resolver o impasse. Contudo, as negociações
não saem justamente como eles esperavam e uma guerra é instaurada contra o
planeta Naboo. Os dois Jedi recebem então uma outra missão, escoltar a jovem
Rainha Amidala (Keira Knightley) e sua auxiliar Padmé (Natalie Portman) a
Coruscant, capital da Federação, para solicitar ao Chanceler Finis Valorum
(Terence Stamp) o fim de tal guerra sem propósito. Porém, após tentar
trespassar o bloqueio espacial que a Federação realizou ao planeta Naboo, a nave
real é atingida e o grupo se vê obrigado a realizar uma parada no planeta
Tatooine, onde eles encontram o garoto Anakin Skywalker (Jake Lloyd), única
pessoa capaz de conseguir as peças necessárias para que a nave seja devidamente
reparada e possa seguir a viagem.
Star Wars - Episode I - The Phantom Menace - Trailer:
Crítica:
“Star Wars – Episódio I – A Ameaça Fantasma”
foi um longa que teve tudo, absolutamente tudo, para se tornar um grande marco
na história da Sétima Arte. Temos aqui um competente elenco, um grande
orçamento (US$ 115mi), uma sensacional equipe responsável pelos efeitos visuais
e, acima de tudo, um roteiro que conta com personagens para lá de interessantes
de serem devidamente abordados e explorados. Sem contar, é claro, a magia
contida por trás de toda a obra (ocasionada pela trilogia que teve seu início
nos fins da década de 70), algo que seria capaz (e foi) de arrastar milhões de
fãs para os cinemas do mundo inteiro, a fim de testemunharem como toda a saga
começou. Enfim, era um longa que tinha tudo para entrar para a história do Cinema,
mas não entrou. Por qual motivo? Duas palavras: George Lucas.
Sim, ele mesmo,
o tão aclamado patrono de todos os nerds, o grande responsável pelo mais
importante blockbuster da história do
Cinema (me refiro, certamente, ao episódio de número 4 da saga: “Uma Nova Esperança”) e por uma das mais
bem sucedidas e aclamadas trilogias já lançadas pela Sétima Arte. Enfim, o
maior responsável pelo insucesso deste primeiro episódio (e até mesmo dos
outros dois episódios posteriores, diga-se a verdade) é, justa e ironicamente,
o maior responsável pelo sucesso da saga anterior, George Lucas, o pai da série.
“___ Mas onde foi que Lucas falhou?” ___
Me pergunta o leitor. “___ Naquilo que
ele menos sabe fazer” ___ Respondo eu ___ “Na condução do elenco”. As falhas de Lucas como diretor de atores
soavam gritantes até mesmo nos episódios anteriores da saga, mas ainda assim,
não se mostravam tão visíveis como se mostram aqui. Atores talentosíssimos como
Liam Neeson (este ainda se salva em algumas cenas), Ewan McGregor, Natalie
Portman, Samuel L. Jackson e Keira Knightley tiveram quase toda a sua
competência desperdiçada devido a atuações fracas, sem o menor carisma e
expressividade.
Para citar um
exemplo, repare no semblante de Natalie Portman ao (tentar) demonstrar um ar de
preocupação relacionada à crise que seu planeta estava passando no presente
momento. Uma hora depois, repare no mesmo semblante, da mesma Natalie Portman,
ao (tentar) demonstrar satisfação total por ter resolvido tal crise que tanto a
atormentava no início da projeção. Pois é, eu sei, não há mudança alguma. Mas
não, a inexpressividade de todo o elenco (isso inclui tanto os atores
primários, como secundários e, até mesmo terciários, para não dizer também os
figurantes e extras) não é o maior defeito do longa no que diz respeito à
atuações. Temos um problema ainda mais grave aqui: a entonação das vozes de
todos (e eu disse todos, sem exceções) os atores.
Sempre gostei
muito de assistir a um filme no idioma original do mesmo, para que pudesse,
desta maneira, analisar o tom de voz que os atores empregaram a fim de compor
os seus respectivos personagens e as situações pelas quais estes estão
passando. Contudo, nunca imaginei que, em toda a minha vida, pudesse utilizar
isto um dia a fim de defini-lo como maior qualidade, ou maior defeito (como é o
caso com este longa) de uma determinada obra cinematográfica. Sinceramente, não
há como não notar, e é claro, se irritar veementemente, com a falta de dicção
dos atores em várias cenas do longa.
Vide, por
exemplo, a seqüência onde a personagem de Pernilla August diz a seu filho
Anakin Skywalker (sim, ele mesmo): “___
Any, estou tão orgulhosa de você! Você trouxe esperança a quem não mais a
tinha!”. O problema é que, uma frase que deveria ter sido proferida da
maneira mais vigorosa o possível, acabou soando tão insossa quanto se a mesma
personagem dissesse ao filho: “___ Any,
vá dormir que já é tarde e amanhã você deve acordar cedo!”. Mas antes o tom
de voz mono tônico fosse apenas um defeito correspondente ao elenco secundário
do filme, isso seria uma verdadeira benção. Note a cena em que a personagem de
Natalie Portman (uma das peças mais importantes não só deste longa, como da
trilogia inteira) diz a seguinte frase: “___
Peço, ou melhor, imploro com todas as forças que nos ajudem!”. Francamente,
um pedido de ajuda com uma entonação de voz daquelas não seria capaz nem ao
menos de convencer uma criança com os bolsos cheios de dinheiro a comprar um
doce, quiçá incentivar seres tão orgulhosos quanto os suplicados, no caso, a
oferecerem ajuda.
Não bastasse as
falhas supracitadas, a direção de Lucas não falha apenas no que diz respeito à
condução do elenco. Sem demonstrar a menor capacidade para criar ângulos
satisfatórios com a câmera, ou acompanhar as seqüências de ação realizando travellings que as tornaria muito mais
convincentes e realistas, ou ainda conduzir o filme de uma maneira que fosse
capaz de fugir do convencional, George Lucas nos apresenta a uma direção
verdadeiramente falha e incompetente do ponto de vista geral, merecendo,
incontestavelmente, o prêmio Framboesa de Ouro® de pior diretor que concorreu
em 2.000.
Além da direção
patética de Lucas e das atuações nada convincentes por parte de todo o elenco
(salvo Liam Neeson que salva-se em muitas cenas), o longa investe em um humor
recheado de gagsprevisíveis e
totalmente desnecessárias que, durante muitas cenas, acabam até mesmo quebrando
um clima de tensão que o filme está tentando conferir ao seu público durante as
suas seqüências de ação. Pior ainda é constatarmos que tais gags vêem de um personagem nem um pouco
inerente à trama, refiro-me, é claro, ao insuportavelmente irritante Jar Jar
Bink.
Na verdade,
confesso ter exagerado ligeiramente quando mencionei que Bink é
“insuportavelmente irritante”. Não creio que Bink seja um personagem tão
irritante quanto a maioria esmagadora das pessoas que assistem ao filme o
considera, mas que ele incomoda muito, isso incomoda. Principalmente se prestarmos
atenção na falta de uma justificativa realmente convincente para que o
personagem se torne inerente à trama. Parece que o único propósito de Jar Jar
no longa foi realmente o de servir de subterfúgio para os produtores explicarem
o alto custo gasto com os efeitos visuais deste, já que a criatura fora o
primeiro personagem 100% digital que a Sétima Arte já nos apresentou (fato que
foi muito ressaltado e comentado durante a época).
E aproveitando o
ensejo, uma vez que mencionei os efeitos visuais do longa, talvez seja esta a
melhor ocasião para listar as qualidades do mesmo que, sim, são muitas. Falemos
um pouco mais sobre os efeitos visuais do filme, sobretudo os que compõem a
criatura Jar Jar Binks que, sim, é perfeita, em especial se levarmos em conta a
inovação que a mesma trouxe para o Cinema, possibilitando com que mais tarde
outros personagens 100% digitais pudessem ser confeccionados, como é o caso de
Gollum, da excelente trilogia: “O Senhor
dos Anéis”.
Para se comentar
sobre a criatura Jar Jar, deve-se esquecer que esta foi criada anteriormente ao
Gollum e que, naturalmente, não é tão bem animada quanto o anti-herói da saga
de Peter Jackson. Bink é bem animado, seus movimentos são todos naturais, mas a
algo de errado com o semblante da criatura: a falta de brilho em seus olhos.
Entretanto, devemos levar em conta que fora a primeira criatura 100% digital
criada pelo Cinema, e só isto já basta para que o personagem seja totalmente
respeitado por nós (me refiro do ponto de vista técnico, já que do ponto de
vista artístico a criatura não têm nenhuma função na trama).
Os demais
efeitos visuais também são muito bem empregados e, ao contrário da maioria dos
filmes do gênero, eles não são utilizados apenas com o intento de cobrir os
buracos no roteiro ou a falta de uma estória verdadeiramente decente. Aqui, a
grande maioria dos efeitos visuais são utilizados a fim de conferir mais
dinamicidade e realismo às seqüências de aventura (estas que são muito má
dirigidas por Lucas, conforme consta supracitado). Vide a clássica corrida de pods, por exemplo, que apesar de perder
muita tensão graças à câmera pesada de Lucas, se mostra bastante emocionante
devido ao uso extremamente de efeitos visuais que a engrandece e a torna uma
das cenas mais marcantes de toda a saga.
A fotografia e a
direção de arte são outros aspectos que engrandecem, e muito, o filme. Não há
como não se cativar com a beleza plástica que é o reino subaquático de Gunga
City, ou com a suntuosidade dos palácios contidos na capital do planeta Naboo,
ou as paisagens áridas de Tatooine, o saguão onde ocorre a luta entre Qui-Gon
Jinn, Obi-Wan Kenobi e Darth Maul,e, principalmente, com a maravilha gráfica
que é o planeta Coruscant (principalmente quando se tem a visão noturna do
planeta, a capital da Federação. Aliás, a fotografia e a direção de arte que
nos apresentam a Coruscant deveriam ser comentadas individualmente, já que o
planeta está recheado de cenários deslumbrantes, como é o caso da pista de
pouso, da sala de reuniões do Conselho Jedi e, especialmente, a sala onde
ocorre a Assembléia entre os Senadores que representam os planetas ligados à
Federação. Não restam duvidas de que, visualmente, “A Ameaça Fantasma” é um filme perfeito e tanto a sua direção de
arte quanto a sua fotografia merecem ocupar um lugar entre as 50 melhores de
todos os tempos.
George Lucas,
por mais incrível que isso possa parecer, também colabora um pouco para que o
filme se torne agradável. Se por um lado Lucas se mostra incompetente na
condução de câmeras, por outro lado o diretor se mostra sabiamente oportunista
no que diz respeito à maneira como ele utiliza os efeitos visuais do longa a
fim de nos proporcionar seqüências de ação absurdamente fantásticas, dentre as
quais menciono a já citada corrida de pods
e a batalha final, ocorrida no planeta Naboo (esta, aliás, uma seqüência
fantástica, que confere um ritmo incrível ao filme).
No entanto, é
como roteirista que Lucas quase se redime de todas as suas falhas como diretor.
Injustamente criticado por sua estória aparentemente fraca, o roteiro deste “A Ameaça Fantasma” cumpre muito bem o
seu propósito, que nada mais é do que simplesmente iniciar a saga. Para isso,
era necessário que uma estória altamente complexa e bem desenvolvida nos fosse
apresentada (como a trama contida nos episódios IV, V e VI)? Certamente que
não. Bastava apenas o roteiro nos introduzir ao “mundo Star Wars” completando algumas informações que acabaram ficando
incompletas ou vagas com o desfecho da trilogia anterior, tais como: o que vem
a ser a tão comentada Força? Qual é a origem de Anakin Skywalker? Por que um
jovem tão humilde e repleto de valores morais viria a se tornar o vilão mais
temido da história do Cinema (esta questão, na realidade, será melhor
desenvolvida nos dois episódios posteriores a este)? Como Obi-Wan Kenobi
conheceu Anakin Skywalker? Como o conselho Jedi se organizava? “___ E o roteiro concebido por Lucas consegue
responder as questões supra?” ___ Me pergunta o leitor. Eu respondo que não
apenas consegue as responder, como o faz de um modo bastante natural e
convincente e, de quebra, conta com uma trama dinâmica que, mesmo estando longe
de ser tão grandiosa como a dos demais episódios da saga, se revela
suficientemente divertida.
Em suma, este
primeiro episódio da saga “Star Wars”
se revela uma experiência suficiente e individualmente divertida, apesar de empalidecer
muito perante os demais episódios da saga. Lucas se mostra extremamente
incompetente na direção do longa, sobretudo na condução do elenco, mas consegue
conceber seqüências de aventura (em especial as lutas com sabres de luz, estas que, devido à falta de tecnologia na época, não eram tão empolgantes na trilogia anterior, se tornam o ponto alto do filme em questão) que tornam a experiência bastante dinâmica e
agradável e, principalmente, divertida. O longa se revela narrativamente
interessante, uma vez que cumpre o seu papel de nos introduzir no mundo “Guerra nas Estrelas” e é de uma beleza
visual estonteantemente arrebatadora.