Lembro-me muito
bem da primeira vez em que assisti a este filme. Fui ao cinema junto de dois
amigos (algo raro de se acontecer, pois geralmente vou ao cinema sozinho) e
encontrava-me no auge de meu fanatismo incondicional por “Star Wars”. Lembro-me que, na época (foi em 2002, eu possuía 18
anos), só havia uma coisa que me atraia mais do que a saga dirigida por George
Lucas: o estilo musical Heavy Metal,
em especial o melódico produzido na Alemanha (não citei o substantivo “mulher”
aqui, pois soaria clichê demais). No mais, tudo que me vinha à mente estava,
direta ou indiretamente, voltado à saga “Star
Wars”, tudo mesmo. Quando assisti ao filme pela primeira vez, como não
poderia deixar de ser, achei-o perfeito. Hoje em dia, com o fanatismo pela
série bem menor que durante a época supracitada, pude conferir o mesmo
utilizando a razão acima de tudo e constatar que, apesar de ótimo, o filme
conta com algumas visíveis falhas, conforme o leitor poderá constatar no texto
a seguir.
Ficha Técnica: Título
Original: Star Wars: Episode II - Attack of the Clones Gênero: Aventura / Ficção Científica Tempo de Duração: 144 minutos Ano de Lançamento (EUA): 2002 Site Oficial:www.starwars.com/episode-ii Estúdio: Lucasfilm Ltd. / JAK Productions Ltd. Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation Direção: George Lucas Roteiro: Jonathan Hales e George Lucas Produção: Rick McCallum Música: John Williams Fotografia: David Tattersall Desenho de Produção: Gavin Bocquet Direção de Arte: Phil Harvey e Jonathan Lee Figurino: Trisha Biggar Edição: Ben Burtt Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic Elenco: Ewan McGregor (Obi-Wan Kenobi),
Hayden Christensen (Anakin Skywalker), Natalie Portman (Senadora Padmé
Amidala), Ian McDiarmid (Chanceler Palpatine), Pernilla August (Shmi
Skywalker), Jack Thompson (Cliegg Lars), Anthony Daniels (C-3PO / Tenente
Faytonni), Christopher Lee (Conde Dooku), Samuel L. Jackson (MaceWindu), Frank Oz (Yoda - voz), Andrew Secombe
(Watto - voz), Oliver Ford Davies (Sio Bibble), Silas Carson (Viceroy Nute
Gunray / Ki-Adi-Mundi), Kenny Baker (R2-D2), Ahmed Best (Jar Jar Binks / Achk
Med-Beq - vozes), Jimmy Smits (Senador Bail Organa), Ayesha Dharker (Rainha
Jamillia), Joel Edgerton (Owen Lars), Bonnie Piesse (Beru Whitesun), Temuera
Morrison (Jango Fett) e Daniel Logan (Boba Fett).
Sinopse: Com uma crise assolada por toda
a República, rebeldes separatistas ameaçam iniciar uma guerra civil
intergaláctica. Para evitar que tal tragédia ocorra, a, agora, Senadora do
planeta Naboo, Padmé Amidala (Natalie Portman), desembarca em Coruscant, a fim
de votar a favor da criação de um exército para ajudar os valentes cavaleiros
Jedi a manter a paz por toda a Federação. Entretanto, um inesperado atentado
contra a Senadora ocorre na plataforma de desembarque e, após escapar ilesa, a
mesma é posta aos cuidados do Jedi Obi-Wan Kenobi (Ewan McGergor) e de seu
Padawan Anakin Skywalker (Hayden Christensen). O primeiro deverá investigar
quem está por trás de tal atentado, ao passo que o segundo deverá escoltar a
política até o seu planeta natal e protegê-la a todo custo. Contudo, um
perigoso romance passa a acontecer entre Anakin e Padmé.
Star Wars - Episode II - Attack of the Clones - Trailer:
Crítica:
Não sei ao certo
se foi George Lucas quem decidiu dar ouvido às críticas negativas direcionadas
ao episódio anterior a este “Ataque dos
Clones” ou se foi ele mesmo quem decidiu repensar por si próprio nos
diversos erros que havia cometido em “A
Ameaça Fantasma”. A única coisa que sei é que o consagrado diretor parece
ter aprendido com os erros cometidos no primeiro episódio e os corrigido
durante a produção deste segundo (entre tais erros corrigidos, cito
ligeiramente a feliz decisão de conferir bem menos importância à irritante
criatura Jar Jar Binks). O problema é que, ainda assim, Lucas não foi capaz de
evitar certos erros que nem ao menos existiam no episódio antecessor e surgiram
pela primeira vez aqui.
Ao contrário de
“A Ameaça Fantasma”, este “Ataque dos Clones” conta com atuações
ótimas e carismáticas, fazendo com que nos cativemos com a grande maioria de
seus personagens, diferentemente do que acontecia no longa anterior. Ewan
McGregor e Natalie Portman tiveram uma, mais do que visível, evolução em suas respectivas
atuações e o estreante Hayden Christensen também não faz feio ao assumir o
personagem de Anakin Skywalker. A química e o entrosamento entre as peças do
elenco também tiveram uma relevante evolução, e isso acabou colaborando, e
muito, para o resultado final do filme.
Mas não apenas
as atuações de todo o elenco, como também o próprio roteiro, teve uma
contribuição indispensável para que a relação público-personagens se saísse da
melhor maneira o possível. Conseguindo criar subtramas que acabam desenvolvendo
seus protagonistas de maneira bastante convincente, Lucas traça o perfil dos
três personagens principais tomando por base as atitudes que estes adotam de
acordo com uma determinada situação vivenciada por cada um.
Anakin Skywalker
é, indubitavelmente, o personagem mais bem explorado pelo roteiro. Precipitado,
arrogante (infelizmente o roteiro erra um pouco na dose de tal arrogância,
tornando o personagem artificial demais durante alguns pouquíssimos minutos de
projeção), irracional e de temperamento explosivo e imprevisível, o jovem
aprendiz de Jedi nem de longe lembra o garoto estoicista e altruísta do longa
anterior. Por outro lado, o roteiro também prima por distanciar o Anakin deste
“Ataque dos Clones” do personagem que
ele virá a se transformar no terceiro episódio. O Anakin Skywalker deste
segundo episódio é o perfeito intermédio entre o garoto de índole
inquestionável de “A Ameaça Fantasma”
e o adulto frustrado com os seus sonhos que será abordado no episódio sucessor
a este. Skywalker é a prova definitiva de que o ser humano, por melhor que
seja, pode ser convertido e influenciado pelo meio e pelas circunstâncias que o
cercam.
Obi-Wan Kenobi,
que havia passado meio batido no longa anterior, também é muito bem aproveitado
pelo roteiro deste longa e a atuação consistente e carismática de McGregor
colabora muito para isso. Revelando-se um homem racional, sério, comprometido
com o serviço, mas extremamente precipitado e involuntariamente autoritário e
possessivo, o caráter do mestre Jedi é amplamente exposto neste filme e
colabora muito para que percebamos o quão este personagem influencia, tanto
negativamente quanto positivamente, Anakin Skywalker, colaborando imensamente
para o destino cruel e sombrio reservado a este.
Padmé Amidala,
muito provavelmente, é a protagonista que menos foi aproveitada pelo roteiro,
apesar de ter sido muitíssimo bem empregada pelo mesmo. Antes, rainha de Naboo,
agora, senadora deste mesmo planeta, a garota se mostra amável, honesta,
empenhada, determinada, mas é sempre extremamente racional e faz o possível
para evitar um previsível romance com Anakin Skywalker imaginando que isto
causaria danos irreversíveis a ambos.
E aproveitando a
menção que fiz ao romance entre Anakin e Padmé, devo dizer que o mesmo alterna
entre altos e baixos constantemente. O casal não possui muita química, diga-se
a verdade, mas ainda assim acaba, estranhamente, nos cativando (talvez seja
pelo simples fato de sabermos a importância fundamental que tal envolvimento
terá nos episódios posteriores). O relacionamento entre ambos, infelizmente, se
apóia em alguns planos clichês imperdoáveis, com direito a cenas em que ambos
rolam na grama de um local altamente paradisíaco e, é claro, ao primeiro beijo
trocado entre ambos (também em um local de vista paradisíaca) com direito a um
artificial pós-arrependimento por parte da jovem senadora que diz: “___ Não, não está certo fazermos isso!”.
Ainda assim, tal envolvimento amoroso é de suma importância para a hexalogia
inteira (e, provavelmente, é um dos pontos mais importantes que foram abordados
por esta nova trilogia).
Outro fato
importantíssimo ocorrido neste “Ataque
dos Clones” e que, posteriormente, irá colaborar, e muito, para a
transformação de Anakin Skywalker no temível personagem que o destina, é o
falecimento de uma determinada pessoa muito querida por ele (cujo nome,
obviamente, não irei revelar). Contudo, da mesma forma que o romance entre
Anakin e Padmé alterna entre altos e baixos, a seqüência da morte de tal pessoa
segue o mesmo caminho. Abusando de um clássico clichê hollywoodiano, Lucas
dirige a cena com uma dose de pieguice, com direito a presenciarmos a pessoa
morrendo nos braços de Anakin, dizendo: “Eu
te amo!”. Por outro lado, o modo como o roteiro trabalha a influência que
tal baque causa ao personagem é sensacional e sentimos na pele todo o ódio despertado
dentro deste. Infelizmente tal seqüência se encerra com uma falha que poderia,
e deveria, ter sido facilmente evitada por Lucas: o excesso na atuação de Christensen.
A fim de demonstrar toda a sua ira, o jovem ator exagerou nas expressões de
cólera e na tentativa de se revelar um bad
ass, tornando a seqüência toda um tanto o quanto exagerada. O roteiro
também não colabora muito com o desfecho da cena e cria diálogos patéticos do
tipo: “___ Matei a todos eles. Não só aos
homens, como também mulheres e crianças!”.
A estória, por
sua vez, é ótima e é justamente ela que se revela o grande diferencial desta obra.
Ao contrário do primeiro longa que não se preocupou em criar uma estória
complexa e profunda (já que nem precisava disto, uma vez que a intenção do
filme, conforme citei em minha crítica, era
introduzir o espectador no universo “Star
Wars” e isto ele se revelou capaz de fazer), este “Ataque dos Clones” conta com uma trama bem complexa e, por que não
dizer, misteriosa. Logo no intróito da película somos lançados em um atentado
completamente inesperado à Senadora Amidala, a fim de impedir com que esta vote
na formação de um exército que irá impedir com que grupos rebeldes separatistas
iniciem uma guerra civil intergaláctica. A partir daí, Obi-Wan Kenobi é
designado para descobrir quem está por trás de tal tentativa de assassinato e
Anakin Skywalker recebe a missão de proteger Padmé Amidala.
A sorte do
roteiro, no entanto, é que a sua estória se revela suficientemente interessante
para prender o público alvo e ele a desenvolve muito bem, pois se fossemos
depender das cenas de ação para tal (conforme ocorreu no episódio anterior), o
filme certamente teria encontrado sérios problemas em cativar o espectador. Não
que as seqüências de aventura não sejam boas, muito pelo contrário, são ótimas
e diria que superam facilmente todas as cenas de ação do longa anterior, mas o
problema é que neste segundo episódio elas são muito más distribuídas,
diferentemente de “A Ameaça Fantasma”.
Certamente cenas
como a perseguição de carros ocorrida logo no início do longa, a perseguição
espacial ocorrida entre Jango Fett e Obi-Wan Kenobi, as lutas na arena, o
ataque que o exército de clones (cena esta que intitula o filme) realiza contra
os rebeldes separatistas e, é claro, as lutas com sabres de luz (estas,
inclusive, contam com uma sensacional, embora curta e, até mesmo,
decepcionante, participação inesperada e inusitada de um personagem altamente
surpreendente que manterei no anonimato por razões óbvias) empolgam, e muito, o
espectador.
O grande
problema, no entanto, é o fato de elas estarem concentradas mais no primeiro e
terceiro atos do filme, tornando o segundo ato um tanto o quanto cansativo durante
alguns minutos de projeção. A trama, conforme já havia mencionado, é
interessante o bastante para prender o espectador, mas até mesmo ela acaba não
evoluindo o bastante sem as seqüências de ação que deveriam conter no segundo
ato.
Uma vez
comentadas as seqüências de ação do longa, vale ressaltar também a direção de
George Lucas durante estas. Não apenas o modo como o diretor conduz o seu
elenco, como também a maneira que ele conduz as cenas de aventura, tiveram uma
visível e agradável melhora. Se antes Lucas havia se revelado um patético
diretor, aqui ele se mostrou muito mais competente ao conduzir o filme e,
apesar de não realizar movimentações com a câmera acima da média, se revelou
capaz de criar ângulos muito interessantes, principalmente durante o ataque dos
clones, onde ele cria fantásticas tomadas aéreas, posicionando as câmeras
dentro das espaçonaves, colaborando assim para um considerável aumento no clima
de tensão de tais seqüências.
A parte técnica
do longa também conta muitos pontos para a sua avaliação final. Os efeitos
visuais, desta vez, se mostram ainda mais superiores que os do longa anterior e
tornam todas as seqüências de ação ainda mais eletrizantes do que elas já
seriam por si só. A direção de arte, no entanto, não se mostra capaz de criar
cenários tão magníficos quanto os do longa anterior e não conta com a mesma
criatividade demonstrada anteriormente, mas ainda assim nos apresenta a lugares
fantásticos como o chuvoso Planeta Kamino (em especial o interior dos palacetes
deste. Note como é impossível não se encher os olhos face ao excelente emprego
do branco futurista como decoração interna), a arena e a fábrica de robôs do
planeta Geonosis, além, é claro, de Coruscant e Naboo, que aqui contam com
alguns lugares fantásticos que ainda não haviam sido explorados pelo longa
anterior.
Outra agradável
surpresa inserida neste filme é a fantástica atuação de Christopher Lee.
Empregando um tom de voz simplesmente fabuloso, o ator faz de seu Conde Dookan
um dos personagens mais marcantes desta nova trilogia. Sua atuação, como
sempre, é consistente e convincente e a cada momento em que o ator aparece em cena
o filme evolui consideravelmente.
Por fim,
gostaria de comentar uma cena em especial do filme que foi capaz de me arrepiar
inteiro, e provavelmente arrepiou, ou irá arrepiar (caso a pessoa ainda não
tenha assistido ao longa) a todos os starwarsmaníacos. Refiro-me à cena onde vemos todos os
principais membros do lado escuro da Força reunidos em um camarote, avistando
de cima, a marcha de um gigantesco grupo de clones. O grande marco desta cena,
certamente, reside nos primeiros acordes tocados da fantástica Marcha Imperial,
tema composto pelo genial John Willians (que não bastasse ter composto a
fantástica trilha-sonora da hexalogia “Star Wars”, compôs também a
inesquecível trilha-sonora da ótima trilogia “Indiana Jones”).
Cronologicamente falando, é a primeira vez que escutamos a música sendo tocada
e, só isso, já basta para encher os olhos de qualquer fanzóide da série
(isto inclui este que vos escreve) de lágrimas.
Optando sabiamente por corrigir os erros que
havia cometido em “A Ameaça Fantasma”, George Lucas se redime aqui e
extrai de seu elenco ótimas atuações (salvo Hayden Christensen que falha
algumas vezes, mas nada que comprometa o seu ótimo desempenho geral), além de
conduzir muito bem as seqüências de ação do longa, criando ângulos muito bons
para isso. A estória é bastante interessante e o roteiro a desenvolve muito
bem, tal como os seus respectivos protagonistas, mas, infelizmente, o longa
inicia o romance entre Anakin Skywalker e Padmé Amidala de maneira deveras
artificial, fazendo com que aja pouca química entre ambos e o relacionamento
destes só nos cative por levarmos em conta a importância que o mesmo terá à
hexalogia inteira. As seqüências de ação são todas excelentes, mas acabam sendo
má distribuídas durante o filme, que só não deixa o espectador entediado em
virtude à maneira inteligente como o roteiro trabalha a sua estória principal.