Lembro-me que
quando fui assistir a este terceiro episódio no cinema (desta vez sozinho, como
eu gosto) meu fanatismo pela saga “Star
Wars” havia sido reduzido consideravelmente (foi em 2.005, eu estava com 21
anos na ocasião), principalmente em virtude do impacto que a trilogia “O Senhor dos Anéis” havia causado em mim
e também pelo fato de, na época, os meus gostos cinematográficos estarem
completamente voltados aos filmes cult
de Arte, sendo assim, ao invés de passar algumas horas assistindo a um blockbuster eu preferia muito mais
aproveitar o tempo assistindo a um Kubrick, ou um Bergman, ou um Fellini.
Felizmente venci o preconceito que possuía na época e, atualmente, apesar de
preferir muito mais os chamados cult
de Arte, valorizo, e muito, os blockbusters.
Tendo em vista isso, vejo-me capaz agora de avaliar este longa como o mesmo
realmente deve ser avaliado: como um ótimo filme comercial.
Ficha Técnica: Título
Original: Star Wars: Episode 3 - Revenge of the Sith Gênero: Aventura / Ficção Científica Tempo de Duração: 146 minutos Ano de Lançamento (EUA): 2005 Site Oficial:www.starwars.com/episode-iii Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuição: 20th Century Fox Film Corp. Direção: George Lucas Roteiro: George Lucas Produção: Rick McCallum Música: John Williams Fotografia: David Tattersall Desenho de Produção: Gavin Bocquet Direção de Arte: Ian Gracie, Phil Harvey, David Lee e Peter Russell Figurino: Trisha Biggar Edição: Roger Barton e Ben Burtt Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic Elenco: Hayden Christensen (Anakin
Skywalker / Darth Vader), Ewan McGregor (Obi-Wan Kenobi), Ian McDiarmid
(Chanceler Supremo / Imperador Palpatine / Darth Sidious), Natalie Portman
(Senadora Amidala / Padmé Naberrie-Skywalker), Samuel L. Jackson (Mace Windu),
Christopher Lee (Conde Dooku / Darth Tyranus), Anthony Daniels (C-3PO), Kenny
Baker (R2-D2), Peter Mayhew (Chewbacca), Frank Oz (Yoda - voz), Jimmy Smits
(Senador Bail Organa), Genevieve O'Reilly (Senador Mon Mothma), Ahmed Best (Jar
Jar Binks), Jay Laga'aia (Capitão Typho), Joel Edgerton (Owen Lars), Oliver
Ford Davies (Governador Whitesun-Lars), Temuera Morrison (Comandante Cody /
Comandante Thire / Comandante Bly), Keisha Castle-Hughes (Rainha Apailana),
Rebecca Jackson Mendoza (Rainha de Alderaan), Bruce Spence (Tion Medon), Kee
Chan (Senador Male-Dee), Ling Bai (Senadora Bana Breemu), Warren Owens (Senador
Fang Zar), Rena Owen (Senadora Nee Alavar), Christopher Kirby (Senador Giddean
Danu), Matt Sloan (Plo Koon), Rohan Nichol (Capitão Antilles), Matthew Wood
(General Grievous - voz), James Earl Jones (Darth Vader - voz) e George Lucas
(Barão Papanoida).
Sinopse: Após salvar o Senador
Palpatine, que fora seqüestrado pelos exércitos rebeldes, Anakin Skywalker se
torna ainda mais íntimo deste. Entretanto, o jovem aprendiz de Obi-Wan Kenobi
não sabe que o Senador almeja tomar o poder absoluto e utilizá-lo como
principal ferramenta para tal.
Star Wars: Episode 3 – Revenge of the Sith – Trailer:
Crítica:
A sensação que
este “A Vingança dos Sith” deixou nos
fãs da saga “Star Wars” durante o seu
lançamento nos cinemas foi provavelmente a mesma sensação de angústia que “O Retorno do Rei” deixou nos fãs da saga
“O Senhor dos Anéis” ou “A Última Cruzada” deixou nos fãs da
trilogia “Indiana Jones” (que
recentemente fora estendida com um interessante quarto episódio). Afinal de
contas, os milhões de fãs que a mesma possui já não poderiam mais lotar as
salas de cinema do mundo todo a fim de se reencontrar com o mundo mágico criado
por George Lucas em uma aventura inédita. Mas ao menos serve de consolo o fato
destes fãs saberem que a saga, a partir do momento que este terceiro episódio
estreasse nos cinemas do mundo todo, estaria completa e que, agora, todas as
pontas existentes entre a antiga e a atual trilogia encontravam-se, finalmente,
completamente amarradas.
É uma tarefa
muito árdua, no entanto, amarrar todas as pontas de ambas as trilogias de um
modo realmente convincente e satisfatório. Pode-se confirmar isto neste “A Vingança dos Sith” onde, ironicamente,
as maiores falhas e os maiores acertos do mesmo residem, justamente, na
tentativa do roteiro criar elos entre uma trilogia e outra. Vide o maior erro
do roteiro, por exemplo, que consiste em mostrar o principal motivo que teria
levado Anakin Skywalker a abraçar o lado escuro da Força. Após ter uma visão,
durante um sonho seu, onde sua esposa Padmé Amidala (que agora encontra-se
grávida) perde a vida após dar a luz a um filho seu, o jovem Padawan passa a
buscar medidas desesperadas a fim de evitar que tal fato seja concretizado. Ao
saber da situação em que o jovem se encontra, o Senador Palpatine, Chanceler
Supremo da Federação e Mestre dos Lords Sith (uma espécie de Jedi que utiliza a
Força apenas para benefício próprio), propõe a Skywalker que este se una a ele
no combate contra os Jedi e em troca, o político ensinará ao jovem os poderes
do lado escuro da Força que poderão salvar a vida de Padmé. Francamente, uma
lastimável e artificial solução que o roteiro encontrou para fazer com que o
jovem muda-se completamente de posição ideológica.
Por outro lado,
o mesmo roteiro que apresenta uma solução tão simplória e artificial para a
mudança de caráter repentina de Skywalker, se revela extremamente satisfatório
ao trabalhar os demais pontos que fizeram com que o aprendiz de Obi-Wan Kenobi
sofresse tal mutação ideológica. Uma vez que o episódio anterior já cumprira a
excelente tarefa de desenvolver Anakin de maneira bastante convincente, este
terceiro episódio opta inteligentemente por não tentar desenvolver o personagem
ainda mais. Ao invés disso, o roteiro toma a brilhante decisão de desenvolver o
Senador Palpatine e o jogo psicológico que este realiza em Anakin, fazendo-o
mudar completamente de lado (e sinceramente, se o roteiro não tivesse tomado
tal atitude, a mudança de lado do protagonista soaria extremamente artificial e
o filme se revelaria extremamente falho).
Conforme pudemos
testemunhar em “Ataque dos Clones”,
Anakin Skywalker era um jovem talentoso, mas extremamente arrogante e
precipitado. Neste “A Vingança dos Sith”
a sua impaciência aumenta cada vez mais levando em conta a insistência do
Conselho Jedi em não conferir a ele o título de Cavaleiro Jedi (os membros do
Conselho têm dúvidas quanto a Anakin em virtude à arrogância do rapaz e aos
fortes laços que este tem com o Chanceler Palpatine, algo que, indiretamente,
quebra a independência dos Jedi para com os políticos) e designar-lhe missões
que realmente ponham em teste as suas inúmeras habilidades. Aproveitando-se da
impaciência do aprendiz de Obi-Wan Kenobi e do gênio vaidoso deste, Palpatine trabalha,
através de argumentos convincentes, a mente do jovem rapaz e o incentiva a
auxiliá-lo a tomar o poder absoluto. A maneira como o roteiro desenvolve
Palpatine, suas táticas de persuasão (salvo as que envolvem Padmé que, conforme
fora citado, soam artificiais) e seus diálogos é, não menos, do que excelente.
Tudo foi cuidadosamente arquitetado pelo roteiro, para que a maior parte das
alterações de caráter de Anakin não soassem artificiais.
O grande trunfo
do roteiro, no entanto, consiste na virada espetacular que este dá na estória,
a partir do início de seu segundo ato. A sensação que temos quando Palpatine
põe em prática a sua “Ordem 66” (cuja descrição não irei fazer a fim de não estragar
algumas surpresas) é a de que Lucas utilizou magistralmente os dois episódios
anteriores (e, francamente, as pessoas que afirmam que este terceiro episódio
tornou os outros dois desnecessários, simplesmente não sabem o que estão
falando) a fim de mover estrategicamente todas as suas peças pelo tabuleiro e,
quando chegasse o momento oportuno, utilizaria este terceiro episódio para dar
o xeque-mate. E é justamente isto o que ocorre, cada peça movida nos longas
anteriores teve importância vital para a conclusão desta trama, para o clássico
desfecho da mesma. Simplesmente fascinante. Tão fascinante quanto à tristeza
que nos assola ao ver a Ordem Jedi sendo completamente destruída.
As seqüências de
aventura também são outra característica do filme que alternam entre altos e
baixos. Logo no início somos apresentados à dupla de Jedis de “Ataque dos Clones”, Anakin e Obi-Wan, em
uma missão de extrema importância: libertar o Senador Palpatine, que fora
raptado pelo temível Conde Dookan. É exatamente nesta cena que podemos, pela
primeira vez em toda a trilogia, notar a habilidade de Lucas na movimentação de
câmeras. Pela primeira vez nesta trilogia vemos o “padrinho de todos os nerds”
(como é conhecido o diretor) acompanhando as seqüências de ação de uma maneira
realmente incrível. Note o modo como Lucas acompanha as naves espaciais durante
a batalha, a movimentação com a câmera é perfeita e dá muita credibilidade à
cena em si. Outro
aspecto que conta muitos pontos a favor desta cena é a direção de arte que constrói,
de maneira estupenda, uma nave espacial gigantesca fantástica. Tal seqüência
parece ter sido sublimemente montada por Lucas a fim de homenagear as antigas
batalhas intergalácticas contra um dos símbolos máximos da série, a
Estrela-da-Morte, ocorridas na trilogia anterior.
Contudo, nem
todas as cenas envolvendo aventura são tão magistrais quanto a seqüência acima
citada (milagre eu não ter escrito “supracitada”, não?). Vide o duelo de sabres
de luz travado entre Anakin Skywalker e Conde Dookan, apenas para citar um
exemplo. Em virtude do que vimos no filme anterior, esperava-se uma luta bem
mais consistente, empolgante, e isso acaba não ocorrendo. Temos aqui uma luta
interessante, bem coreografada, mas que deveria ter sido mais bem trabalhada,
principalmente do ponto de vista emocional, do que acabou sendo. Outra luta
decepcionante é a ocorrida entre Obi-Wan Kenobi e o General Grievous,
principalmente se levarmos em conta o interesse que a mesma nos desperta ao
ficarmos sabendo que o segundo combatente, por possuir quatro braços, irá
utilizar quatro sabres de luz simultaneamente, tornando a tarefa de derrotá-lo
praticamente impossível ao destemido Jedi. No entanto, Kenobi derrota-o muito
facilmente, o que torna a seqüência pouco emocionante. Por outro lado, as
demais seqüências de ação envolvendo sabres de luz são fantásticas, em especial
a mirabolante e empolgante luta entre Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker, agora
Lord Darth Vader. Simplesmente um dos mais empolgantes duelos já proporcionados
pelo Cinema e que, infelizmente, devido à baixa tecnologia da época e orçamento
nem tão estrondoso quanto o utilizado nos filmes atuais, viria a se repetir de
um modo bem menos interessante durante o quarto episódio da saga. Devo destacar
também a luta entre Mace Windu e Lord Darth Sidious cujos cuidados com o
resultado final foram tantos que acabaram envolvendo 102 movimentos e três
grandes salas para ser filmada.
A direção de
arte, como já era de se esperar (uma vez que esta se revela o ponto alto de toda
a trilogia), é, não menos, do que estupenda, e mais: é empregada aqui de maneira
ainda mais eficiente do que havia sido empregada nos filmes anteriores. Repare
na beleza plástica que é Coruscant à noite, ou no salão de ópera onde Anakin
tem uma das conversas mais importantes do filme com o Senador Palpatine, ou no
verde natural estonteante do Planeta Utapau e ainda na beleza vulcânica do Planeta Mustafar (a
propósito, a direção de arte majestosa do cenário aqui engrandece ainda mais a
magnífica e dramática luta de sabres entre Obi-Wan Kenobi e Darth Vader).
Os demais
aspectos técnicos do longa também não decepcionam. A fotografia, como sempre, é
belíssima e dá ainda mais realce aos fabulosos cenários criados pela estupenda
direção de arte, a trilha-sonora engrandece ainda mais as seqüências de
aventura, suspense e drama do filme e o figurino também é sensacional, bastante
diversificado e riquíssimo em detalhes, algo que fertiliza ainda mais a magia por
trás do longa.
As atuações, no
entanto, decepcionam e, se comparadas a “O
Ataque dos Clones”, empalidecem consideravelmente. Se por um lado Ian
McDiarmid realiza um trabalho supremo ao assumir a pele do Senador Palpatine e
do Lord Darth Sidious (sinceramente, não vejo melhor ator para cumprir tal
função), por outro lado o excelente Christopher Lee aparece muito pouco e os
demais atores, nem de longe, conseguem criar uma atuação tão marcante quanto a
que ele realizou no longa anterior. Ewan McGregor, se revela um bom ator neste
longa, mas falha em algumas cenas onde precisaria fazer uma entonação de voz
mais dramática. Natalie Portman só atua de maneira definitivamente convincente
ao final do filme, que é justamente quando o roteiro confere uma carga
dramática muito mais forte a sua personagem. Nas demais cenas, a atriz
jerusalense não adota uma carga dramática forte o bastante para fazer com que a
sua personagem se aproxime do público.
E quanto à atuação
de Hayden Christensen? Bem, digamos que esta merece um parágrafo único para ser
comentada de forma mais aprofundada. Christensen realiza uma atuação bastante
irregular no longa e, assim como as cenas de aventura e as artimanhas
utilizadas pelo roteiro a fim de amarrar a trama, seu trabalho aqui alterna
constantemente entra altos e baixos (só que, neste caso ao menos, devo dar mais
ênfase à palavra “baixos” que à palavra “altos”). Note, por exemplo, a maneira
artificial como ele emprega um tom de voz ridiculamente grave e sombrio quando
diz: “___ Eu lhe ofereço o meu empenho em
troca de vossos ensinamentos!”. Por outro lado, o ator canadense emprega,
durante muitas cenas, a expressão de uma pessoa realmente frustrada, cujas
esperanças naquilo que julgava ser o certo a se fazer se revelam cada vez mais
nulas, escassas e minguantes. Contudo, faltou a Christensen mais talento, mais
expressividade, mais dramatização em sua composição, faltou algo que realmente
convencesse o público de que ele é Darth Vader, ele é a alma de toda a
trilogia.
Preparando a finalização
deste texto, comentarei sobre outro ponto que também alterna entre altos e
baixos (sim, mais um, este filme definitivamente se revelou uma montanha russa
artística): os diálogos. Ao mesmo tempo em que temos diálogos extremamente
inteligentes do tipo “O Bem é apenas um
ponto de vista” (algo que Lucas, voluntaria ou involuntariamente, extraiu de
filosofia nieztschiana) e “Era para você trazer equilíbrio à Força, não
jogá-la na escuridão”, Lucas quase joga seu roteiro no lixo com absurdos do
tipo: “Não, você vai tentar me matar!”
(resposta de Skywalker a Kenobi quando o segundo diz que irá matá-lo). Para
piorar a situação, o tom de voz empregado por Christensen a fim de declamar tal
oração é tão artificial que torna a cena ainda mais ridícula do que ela já
seria por si só. Ah, e é claro que não poderíamos ficar sem o clássico e clichê
“Nããããããããããão!” proferido da maneira
mais piegas o possível pelo protagonista.
Resumindo, “A Vingança dos Sith” é um filme que
alterna entre altos e baixos, mas o saldo final acaba sendo incontestavelmente
positivo. Utilizando algumas táticas incríveis a fim de preencher as lacunas
deixadas em aberto na unificação da trilogia antiga com esta nova, Lucas se
revela um roteirista de mão cheia, mas que erra gravemente algumas vezes,
quando tenta, por exemplo, criar um motivo para que Anakin Skywalker opta-se
por pender ao lado escuro da Força envolvendo a sua amada esposa. As seqüências
de aventura são, em sua maioria, muito boas, mas decepcionam completamente o
público em alguns casos. As atuações em sua maioria são boas (e nada além de
boas), salvo Hayden Christensen que se mostra completamente irregular durante o
filme inteiro. A parte técnica deste terceiro episódio é irretocável e o longa
encerra a saga com maestria, servindo como uma perfeita ponte que dá liga as
duas trilogias.
Ah, e como não
poderia deixar de ser, encerrarei definitivamente este texto realizando um
rápido comentário sobre a trilogia inteira. Diria, antes de tudo, que nenhum
dos três episódios se revela dispensável, desnecessário ou fraco (conforme
muitas pessoas dizem), muito pelo contrário, cada um possui a sua função. O
primeiro trata de oferecer ligeiras explicações sobre vários pontos que viriam
a ser abordados futuramente, tais como: o que vem a ser a Força, como fora a
infância de Anakin Skywalker, como Obi-Wan Kenobi passou a treiná-lo e muitas
outras coisas que ficariam completamente vagas sem este primeiro episódio. “Ataque dos Clones”, por sua vez,
encarregou-se de explorar os personagens principais da trilogia, amarrar
algumas pontas deixadas, propositadamente, em aberto pelo primeiro filme,
iniciar (ainda que de maneira artificial) o importante romance entre Anakin e
Padmé, e, acima de tudo, dar início à demonstração das falhas de caráter
apresentadas pelo aprendiz de Obi-Wan Kenobi, fato que o levaria ao destino que
teria de traçar em um futuro não muito distante. O terceiro episódio,
finalmente, se revela o ponto alto da trama e preenche todas as lacunas
deixadas em aberto pelos dois longas anteriores. A trilogia nova realmente não
faz jus à antiga, mas ainda assim se mostra altamente importante para uma
melhor compreensão daquela, além, é claro, de se revelar uma ótima experiência
cinematográfica se fizermos um balanço geral da mesma.