Uma das questões
mais polêmicas envolvendo a crítica de Cinema encontra-se na eterna discussão
sobre a avaliação de um filme ser realizada tomando por base a época de
lançamento deste ou o modo como o mesmo envelheceu. Sempre fui crítico ferrenho
das análises que levam em conta o envelhecimento do filme. Em primeiro lugar,
porque a crítica, na grande maioria dos casos, avalia filmes que estão
estreando nos cinemas de seu respectivo país e, muito dificilmente, avaliará os
mesmos daqui a cinco anos, que seja. Sendo assim, se a grande maioria dos
filmes que são criticados têm por base o período em que foram lançados, por que
não fazer o mesmo com os clássicos? Em segundo lugar temos os filmes que
revolucionam em sua parte técnica, como é o caso de obras do naipe de um “Metropolis”, “King Kong”, “2001 – Uma
Odisséia no Espaço” e, obviamente, este “Star Wars – Episódio IV – Uma Nova Esperança”. Em 1977 ninguém
ousaria dizer que este quarto episódio da saga (quarto cronologicamente
falando, pois foi o primeiro a ser lançado nos cinemas do mundo todo) conta com
efeitos visuais obsoletos, muito pelo contrário, o filme era altamente inovador
na época no que diz respeito a este quesito. Entretanto, se o analisarmos
fazendo um paralelo com os filmes atuais (inclusive com a nova trilogia – “Star Wars”, que engloba os episódios I,
II e III da saga, cujas críticas encontram-se nesta seção do site, logo mais
abaixo), o longa, muito bem dirigido por George Lucas, poderá ser tido como
obsoleto no que se refere a efeitos visuais. E sejamos francos, podemos
considerar uma obra-prima desta magnitude obsoleta? Certamente que não.
Ficha Técnica: Título
Original: Star Wars Gênero: Aventura/Ficção Científica Tempo de Duração: 121 minutos Ano de Lançamento (EUA): 1977 Site Oficial: www.starwars.com/episode-iv Estúdio: LucasFilm Ltda. Distribuição: 20th Century Fox Film Corporation Direção: George Lucas Roteiro: George Lucas Produção: Gary Kurtz Música: John Williams Direção de Fotografia: Gilbert Taylor Desenho de Produção: John Barry Direção de Arte: Leslie Dilley e Norman Reynolds Figurino: John Mollo Edição: Richard Chew, Paul Hirsch e Marcia Lucas Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic Elenco: Mark Hamill (Luke
Skywalker), Harrison Ford (Han Solo), Carrie Fisher (Princesa Leia Organa),
Peter Cushing (Grand Moff Wilhuff Tarkin), Alec Guinness (Obi-Wan Kenobi),
Anthony Daniels (C3PO), Kenny Baker (R2D2), Peter Mayhew (Chewbacca), David
Prowse (Darth Vader), Phil Brown (Tio Owen Lars), Shelagh Fraser (Tia Beru
Lars), Alex McCrindle (General Jan Dodonna), Eddie Byrne (Comandante Vanden
Willard) e James Earl Jones (Darth Vader - Voz).
Sinopse: Após o
seu tio adquirir dois andróides para auxiliá-lo nos afazeres de sua fazenda,
Luke Skywalker (Mark Hammil) descobre em um deles uma mensagem gravada pela
belíssima princesa Leia Organa (Carrie Fisher) para o cavaleiro Jedi Obi-Wan
Kenobi (Alec Guiness). Luke decide então procurar o velho Jedi para
informar-lhe sobre a mensagem e é a partir deste momento que ambos ficam
sabendo que Leia fora seqüestrado e que o Império Galáctico (que assumiu o
controle absoluta da Federação no episódio anterior), comandado por Lord Darth
Vader (atuação de David Prowse e voz de James Earl Jones), planeja construir
uma poderosa estação espacial alcunhada de Estrela da Morte, cuja capacidade de
ataque é tão potente que se mostra capaz de destruir um planeta inteiro em
fração de segundos. Ambos procuram pelo capitão Han Solo (Harrison Ford), um
piloto mercenário que os leva até a Estrela da Morte e os ajudará a resgatar a
princesa Leia e a destruir esta terrível ameaça.
Star Wars - Episode IV - A New Hope - Trailer:
Crítica:
A sensação que
se tem ao assistir a este “Uma Nova
Esperança” é a de que estamos assistindo a três filmes diferentes,
conectados em um só, tamanha a riqueza de detalhes inserida no mesmo. O
primeiro “filme” visa desenvolver os seus personagens e nos apresentar a
estória de um modo menos amplo. O segundo “filme” já tem como objetivo
principal explorar a estória abordada na primeira parte e delinear mais a
mesma. O terceiro “filme”, por fim, visa ampliar a outra estória também
discutida na primeira parte do longa mostrando o embate final entre a Aliança
Rebelde e o Império Galáctico auxiliado pela sua estação espacial alcunhada de
“Estrela da Morte”.
A abordagem de
todos os personagens é simplesmente fantástica. Ao contrário dos três primeiros
episódios da saga, todos os personagens que fazem parte da estória têm uma
função importante para o desenvolvimento e conclusão da mesma e isso inclui até
mesmo os dróides R2-D2 (Kenny Baker) e C3PO (Anthony Daniels) que, além de
servirem como alívio cômico em muitos casos (e, desta vez, a maioria das gags protagonizada por ambos funcionam
muito bem e extraem risos do público, ao contrário dos episódios anteriores
onde tínhamos empregado um humor demasiado infantilóide em muitas cenas),
desempenham, em muitos casos, um papel importantíssimo na trama.
Os personagens
principais da estória também são abordados magistralmente pelo roteiro. Luke
Skywalker (Mark Hammil), como protagonista da trama, convence muito mais que
seu pai Anakin. O jovem é um típico adolescente sonhador cujo conservadorismo
do tio, que é tutor do mesmo, o impede de ir para uma faculdade e seguir uma
carreira que realmente lhe atraia. Bem diferente de Anakin Skywalker do
primeiro episódio, que também residia no planeta Tatooine, Luke é um jovem de
bom caráter, mas ainda assim se mostra impulsivo, rebelde, contestador e possui
uma personalidade forte.
Os demais
personagens também são muito bem desenvolvidos pelo roteiro e merecem destaque
nesta análise. Obi-Wan Kenobi (Alec Guiness), que terminara o episódio anterior
como um grande herói da República, agora, com a queda desta, aparece aqui como
um velho eremita, tido como louco e bruxo aos olhos daqueles que não o
conhecem, e nem fazem questão de o conhecer mais amplamente. A princesa Leia
(Carrie Fisher), apesar de ser a mocinha que precisa ser resgatada, não segue,
nem de longe, o estereotipo desta. Destemida, contestadora e de forte personalidade,
mas ainda assim bela, garbosa e inteligente, a personagem é extremamente
marcante e se mostra capaz de cativar o público.
Há, no entanto,
dois personagens cujo desenvolvimento deixou um pouco a desejar. Refiro-me ao
capitão Han Solo (Harrison Ford) e, acreditem ou não, ao comandante Darth
Vader (atuação de David Prowse e voz de James Earl Jones). Começarei pelo
primeiro, uma vez que o segundo, certamente, gerará mais polêmica. Solo é um
personagem deveras interessante. Seu código de ética e moral parece ter graves
falhas e suas atitudes nem um pouco altruístas o tornam um personagem
interessantíssimo, principalmente se levarmos em conta que ele é um dos heróis
da estória. Todas estas características o colocam em uma posição bem distante
do estereotipo do herói altruísta e estóico que estamos acostumados a ver
repetidamente nos filmes do gênero. Contudo, há uma passagem ocorrida no final
do filme onde Solo toma uma atitude tão discrepante com relação aos seus
princípios morais que põe em jogo todo esta concepção de “mercenário que só se
preocupa com dinheiro” que havíamos absorvido do mesmo durante a projeção
inteira. A justificativa utilizada por este (“___ Não deixaria você (Luke)
ficar com a glória toda só para si”) torna a sua atitude um pouco menos
artificial, mas ainda assim a mesma não deixa de ser discrepante.
Darth Vader, por
sua vez, conta com características para lá de notáveis, que variam deste a sua
vestimenta, que nos remete à sensação de estarmos diante de um personagem
meio-humano, meio-máquina, à sua assustadora respiração lenta e profunda,
passando por seu tom de voz marcante e suas habilidades de ex-cavaleiro Jedi,
agora importante Lord Sith. Sempre que Vader está em cena o filme ganha ainda
mais destaque, mas o roteiro, infelizmente, não deu a devida importância ao
mesmo, sendo que as suas aparições na película acabam sendo poucas, comparadas
à importância que este tem para toda a saga “Star Wars”.
O elenco está
extremamente bem entrosado e a química entre os atores é um dos pontos mais
altos do longa. Note, por exemplo, como as cenas em que Luke Skywalker
contracena com Obi-Wan Kenobi conferem um tom bastante especial à trama. O
mesmo ocorre com a química existente entre o capitão Han Solo e a princesa
Leia Organa ou então a dinâmica ocorrida nas cenas em que o mesmo Han Solo
contracena com o já citado Luke Skywalker. E é claro que não poderia deixar de
destacar a dupla de dróides R2-D2 e C3PO e, até mesmo a cena onde Obi-Wan
Kenobi enfrenta Darth Vader que, apesar de curtíssima, confere um tom especial à
trama e a química decorrente da transigência das atuações.
Do ponto de
vista individual o elenco também demonstra atuações magníficas, em especial por
parte de Mark Hammil e Alec Guiness. O primeiro, se mostra um ator extremamente
convincente e chama para si a responsabilidade de protagonizar o longa, sem
que, para isso, precise roubar a cena dos demais atores. Hammil demonstra um
tom de voz seguro, profere seus diálogos com extrema segurança, é hábil em sua
interpretação, se mostra extremamente expressivo e carismático. Guiness também
realiza uma atuação segura e confere ao seu personagem uma participação muito
mais marcante do que a de McGregor nos primeiros episódios (nada contra o ator
escocês, já que o ator realizou uma atuação convincente, mas nada que se
aproxime da que Guiness realizou neste quarto episódio). O tom de voz empregado
pelo ator também outorga ao seu personagem todo o ar de sapiência que lhe é inerente,
uma vez que, neste quarto episódio, Obi-Wan adota uma postura de mentor
intelectual (fato que também colabora para que o espectador se envolva bem mais
com este mestre Kenobi que o protagonista dos episódios anteriores).
As seqüências de
ação são todas bem empolgantes e Lucas as dirige de maneira sublime, ainda que
movimente a câmera de maneira apenas satisfatória (salvo em uma ou outra
seqüência quando arrisca realizar algum travelling)
na grande maioria das vezes, o diretor sempre se mostra capaz de conferir mais
tensão às mesmas, criando ângulos fantásticos a fim de acompanhá-las (vide, por
exemplo, a seqüência em que
Luke e Solo confrontam as naves imperiais durante o início do
terceiro ato do filme). Dentre as cenas de aventura, destaco, é claro, uma das
cenas mais clássicas de toda a saga: o ataque das naves rebeldes realizado à
estação espacial “Estrela da Morte”. Francamente, não me recordo de ter
assistido a outra cena produzida pela sétima Arte onde os heróis da trama se
mostravam expostos a um perigo de vida tão iminente quanto George Lucas os
expôs na seqüência em questão.
Há outras cenas
de aventura também que merecem muitíssimo destaque, tais como: o resgate da
princesa Léia, os tiroteios ocorridos nos corredores da “Estrela da Morte”, a
seqüência em que os personagens caem no compartimento de lixo da estação
espacial (um exemplo de que pode-se realizar uma cena perfeitamente tensa sem
apelar ao uso de efeitos visuais mirabolantes ou gastar rios de dinheiro para
tal), a conturbada fuga dos heróis que resulta em uma das perseguições
espaciais mais marcantes da história do Cinema (e que empalidece a ótima
perseguição espacial ocorrida entre Obi-Wan Kenobi e Jango Fett em “Ataque dos Clones”) e, como não poderia
deixar de ser, a luta final de sabres de luz travada entre o Jedi Kenobi e o
Sith Darth Vader que, apesar de ter envelhecido mal em virtude dos efeitos
especiais da época estarem obsoletos nos tempos atuais, principalmente se
levarmos em conta os efeitos empregados para conduzir as lutas do gênero
ocorridas na trilogia atual, é extremamente marcante em virtude da maneira como
se encerra e marcou uma geração inteira, aja visto que fora a primeira luta com
armas desta categoria exibida nos cinemas.
Encerrando este
texto, gostaria de comentar outros qautro aspectos que também marcaram este
filme e o elevou à mais do que merecida intitulação de clássico absoluto do
Cinema: refiro-me à trilha-sonora, ao figurino, à direção de arte e aos efeitos
visuais. A primeira, como todos sabem, é marcante e figura facilmente entre as
melhores da história do Cinema. A música tema é cativante, parece ter vida
própria, só falta respirar (será?). As demais músicas também são fantásticas e
realizam um casamento praticamente perfeito com as respectivas cenas em que são
empregadas. O figurino, por sua vez, não poderia ser mais perfeito. Quem
imaginaria, em plena década de 70, ver nos cinemas um homem com um traje igual
ao de Darth Vader? Ou um uniforme igual ao do exército imperial? A direção de
arte também é impecável, repare, por exemplo, na riqueza de detalhes das espaço-naves
ou nos edifícios do planeta Tatooine. Os efeitos visuais, apesar de estarem
ultrapassados se comparados aos filmes atuais foram revolucionários na época, e
não é para menos. Imagine a sensação que se tem, em pleno ano de 1977, você ir
ao cinema e se deparar com uma criatura como Jabba – The Hutt? E o que dizer
então da perfeição com que os efeitos visuais construíram o personagem, dando
ao mesmo movimentos bastante naturais?
Considerado pela
grande maioria dos cinéfilos como a Ficção Científica de Cultura Pop
definitiva, “Uma Nova Esperança” pode
ser encarado como um marco na história do Cinema por ter dado início a uma das
mais bem sucedidas (tanto do ponto de vista comercial como artístico) franquias
já realizadas até os dias de hoje. O longa conta com algumas falhas na
construção de alguns poucos personagens e a estória de resgate adotada aqui é
um pouco batida, mas os seus protagonistas são bastante cativantes e o roteiro
os aborda de um modo que os torna ainda mais marcantes. As atuações de todo o
elenco são mais do que satisfatórias e os atores possuem uma química fantástica
entre si. O filme se enriquece ainda mais com a ótima direção de George Lucas e
outros aspectos tais como: edição, trilha-sonora, direção de arte, figurino,
efeitos sonoros, efeitos visuais e, é claro, suas seqüências de aventura, que
são tensas e memoráveis na medida certa. Uma aventura épica indiscutivelmente digna
de toda a badalação que possui.