Creio que pela
milionésima vez em minha vida repito que não sou, e nunca fui, muito menos
pretendo ser, um grande admirador de histórias em quadrinhos. Refletindo
muito ultimamente a respeito disso, cheguei à conclusão de que isto se deva,
talvez, ao fato de o maior representante de tal forma de literatura ser um
personagem politicamente correto demais, além de reavivar o sonho estadunidense
e, é claro, utilizar uma fantasia ridícula, cuja cueca vermelha é posta sobre
uma vestimenta gritantemente azul (quer algo mais americanizado que isso?).
Entretanto, não há como negar que Hellboy, apesar de conter inúmeras falhas e
não chegar aos pés de um Batman, se revela um super-herói muito mais
interessante que o já mencionado Superman. A criatura, de autoria de Mike
Mignola, além de conter uma aparência extremamente grotesca (divergindo do
estereotipo do super-herói bonitão e gostosão) é politicamente incorreta e
possui diversas falhas em seu caráter, fora o fato de ser odiada pelas próprias
pessoas que solicitam a sua ajuda para salvá-las. Isso, é claro, sem mencionar
todo mistério e mitologia que envolvem o passado, o presente, e o futuro do
protagonista da série. Imagine então um material destes, que já conta com
aspectos o suficiente para dar fortes asas à imaginação de seus leitores,
somado à criativa mente do mexicano Guilhermo del Toro que, além de ser o
responsável por obras fantásticas (em todos os sentidos da palavra) como “O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo”, é fã incondicional
de “O Senhor dos Anéis” (tanto que
irá dirigir o prólogo deste: “O Hobbit”)
e também de mitologia nórdica. Pois é, creio que o leitor já deva ter percebido
que, com um roteirista e um diretor como este, “Hellboy II - O Exército Dourado” não poderia deixar de ser um filme
menos do que interessante, correto? Correto, mas com algumas ressalvas,
conforme o leitor poderá conferir logo mais, na crítica do filme.
Ficha
Técnica:
Título
Original: Hellboy II – The Golden Army Gênero: Aventura / Ação / Fantasia Tempo de Duração: 120 minutos Ano de Lançamento (EUA / Alemanha): 2008 Site Oficial: http://www.hellboyiioexercitodourado.com.br/ Estúdio: Revolution Studios / Lawrence Gordon
Productions / Dark Horse Entertainment Distribuição: Universal
Pictures Direção: Guilhermo del Toro Roteiro: Guilhermo del Toro, baseado em estória de Mike Mignola Produção: Lawrence Gordon, Lloyd Levin, Mike Richardson e Joe Roth Música: Danny Elfman Direção de Fotografia: Guillermo Navarro Desenho de Produção: Stephen Scott Direção de Arte: Peter Francis, Anthony Caron-Delion, John Frankish,
Paul Laugier, Mark Swain e Judit Varga Figurino: Sammy Sheldon Edição: Bernat Vilaplana Efeitos Especiais: Spectral Motion Inc.
/ DDT SFX Crew / DDT SFX Team / Ivo Coveney
Elenco: Ron Perlman (Hellboy), Doug Jones (Abraham Sapien / Anjo da Morte),
Selma Blair (Liz Sherman), James Dodd (Johann Klauss), John Alexander (Johann
Klauss), Seth MacFarlane (Johann Klauss - voz), Luke Goss (Príncipe Nuada),
Anna Walton (Princesa Nuala), Jeffrey Tambor (Dr. Tom Manning), John Hurt
(Prof. Bruttenholm), Brian Steele (Sr. Wink),Roy Dotrice (Rei Balor), Andrew
Hefler (Agente Flint), Iván Kamarás (Agente Steel), Mike Kelly (Agente Marble)
e Montse Ribé (Jovem Hellboy).
Sinopse: Houve uma época em que o Homem
convivia com seres mágicos das mais diversificadas espécies. Entretanto, devido
à ganância humana, tal convívio jamais poderia ser concretizado de modo
harmonioso. A fim de parar os exércitos humanos, que a tudo destruíam e
conquistavam em nome do poder, fortuna e conhecimento, Balor, Rei dos Elfos, a
pedido de seu filho, o Príncipe Nuada, aceitou uma oferta feita pelo mestre dos
Goblins Negros de construir um gigantesco e indestrutível exército mecânico
dourado e derrotar, definitivamente, o exército dos homens, encerrando de uma
vez por todas, a carnificina promovida por estes. Junto com o exército, foi
entregue ao rei uma coroa mágica dourada que poderia controlar toda a armada.
Após derrotar todas as resistências humanas, Balor se mostrou altamente
assustado com o poder de destruição de tal exército e, temendo que o mesmo
fugisse de seu controle, optou por travar um tratado de paz com os humanos,
onde ele dividiria a coroa mágica em três partes, daria uma aos humanos e duas
ficariam consigo mesmo, fazendo com que, desta forma, o poderoso exército se
mantivesse adormecido ao longo dos anos. Contrariado, temendo com que os
humanos jamais cumprissem tal tratado, o Príncipe Nuada abandona o seu reino,
ao lado de seu pai, e se refugia nas florestas, para retornar quando o seu povo
mais precisasse dele. Passa-se diversos séculos desde a trégua travada entre
Homens e Criaturas Mágicas, e Nuada volta para furtar os três pedaços da coroa
e uni-las, reativando dessa forma, o poderoso exército, com o intuito de
exterminar a raça humana que, segundo o príncipe, descumpriu o trato e voltou a
causar risco ao mundo devido à sua ganância. Para evitar que Nuada ponha em
risco o seu plano, os heróis: Hellboy, Abraham Sapien, Liz Sherman, Johann
Krauss e a Princesa Nuala, irmã do Príncipe Nuada, cuja ideologia é bem menos
radical à do irmão, juntam as suas forças para protegerem o pedaço da coroa que
ainda não está em poder do rancoroso elfo.
Hellboy II - The Golden Army - Trailer:
Crítica:
“Hellboy II - O Exército Dourado” pode,
durante o seu primeiro ato inteiro, ser subdividido em dois filmes com
diferentes propósitos. O primeiro visa narrar a dinâmica desenvolvida entre os
heróis do longa, ao passo que o segundo, narra os eventos que se mostram
imprescindíveis para o desenvolvimento da trama. Antes o filme tivesse optado
por colocar o “segundo filme” em primeiro plano. Não, em momento algum insinuei
que o desenvolvimento dos protagonistas do filme é dispensável, até mesmo
porque, apesar destes já terem sido muito bem desenvolvidos no longa anterior,
era necessário que o roteiro elaborasse, ao menos, uma dinâmica entre os
personagens, e isso ele faz muito bem feito, diga-se.
Contudo, o
argumento do longa é tão interessante (uma vez que este conta até mesmo com
mitologia nórdica mesclada à estória principal) que o mesmo deveria ter tido um
desenvolvimento infinitamente maior do que o que fora apresentado aqui. Outra característica
que merecia ter sido desenvolvida de uma maneira bem mais ampla pelo roteiro é
o vilão do longa, o Príncipe Nuada. Nuada é mais um destes antagonistas
megalomaníacos que almeja dominar o mundo a todo o custo, mas há uma explicação
extremamente plausível para tal megalomania: o vilão não ambiciona poder e/ou
fortuna (assim como a grande maioria dos vilões da excelente, embora falha,
franquia “007”), mas sim, salvar o planeta Terra dos
seres humanos.
Sim, o vilão,
encarnado por Luke Goss de maneira caricata, diga-se, tem como objetivo de vida
dominar o mundo para exterminar a raça humana, impedindo, dessa forma, que a
mesma destrua o planeta em que vive, conforme tem feito nos últimos séculos. Se
“Hellboy II” tem uma qualidade que o difere
das demais obras do gênero, tal qualidade reside justamente nos motivos que impulsionam
o seu antagonista a agir de tal forma. Francamente, creio que seja extremamente
difícil não nos cativarmos e, ouso até mesmo dizer, não torcermos para que um
opositor destes não derrote os mocinhos da estória, afinal de contas, seus
propósitos são, de certa forma, heróicos e autruístas. Contudo, conforme já
fora previamente mencionado, é lastimável que o roteiro não aborde Nuada de um
modo mais amplo e dramático, fazendo com que o espectador possa se relacionar
de um modo ainda mais profundo do que já se relaciona com o mesmo.
Os demais
personagens também são extremamente interessantes. Hellboy, a princípio, se
mostra um sujeito capaz de causar repulsas ao espectador devido ao fato de ser
um brutamontes completamente idiota e adepto ao emprego de violência na
obtenção de informações. Contudo, durante o desenrolar da trama, tomamos
ciência do destino o qual a criatura está fadada e isto, de uma maneira ou de
outra, faz com que perdoemos as características reacionárias do “herói”, já que
estas irão ter uma participação direta no fado da criatura.
Liz Sherman é
outra personagem cujo desenvolvimento também é extremamente bem realizado
embasando-se na dinâmica desenvolvida entre esta e um outro personagem, no
caso, o próprio Hellboy, parceiro romântico da mesma no filme. O romance entre
ambos é abordado de maneira deveras satisfatória, os alívios cômicos
provenientes deste também são bem convincentes (“___Eu daria a vida por ela, mas ela ainda quer que eu lave os pratos!”,
só para citar um exemplo) e a forte e, ao mesmo tempo, frágil personalidade
(assim como em todas as mulheres) de Sherman é desenvolvida maravilhosamente
bem quando esta se encontra ao lado de seu par romântico, além, é claro, da
química entre ambos torná-la uma personagem mais humana (e a ele também).
No entanto, é o
extremamente racional Abe Sapien quem acaba sendo desenvolvido de um modo mais
interessante pelo roteiro do filme. Além de ser responsável pela maior parte
das gags que realmente funcionam no
longa, o roteiro sempre cria situações que testam a personalidade do
alienígena. Vide as cenas onde este se vê obrigado a utilizar a força bruta,
por exemplo. Acostumado sempre a utilizar a inteligência como auto-defesa (e
neste quesito ele funciona como amálgama a Hellboy, uma vez que a bizarra
criatura vermelha não é das mais inteligentes e necessita de alguém que o
complete neste quesito), Abraham se sente como uma criança indefesa quando não
se vê capaz de utilizá-la em situações que exigem pura força bruta.
Entretanto, o
mesmo roteiro que acerta no desenvolvimento de Sapien, falha gravemente ao
tentar criar um par romântico ao mesmo. Além de ser piegas, seu romance consome
alguns longos minutos do filme e é irritante e dispensável. Ao menos o ser pelo
qual Abraham passa a nutrir um forte afeto tem uma saída bastante inesperada no
desfecho da trama e isso faz com que a carga dramática inserida no final do
filme aumente bastante.
Não menos
racional que Sapien é o novato Johann Krauss que, logo de cara, assume a
liderança da equipe. A composição de Krauss é fantástica e suas vestimentas nos
remetem à lembrança dos trajes utilizados pelos alienígenas que compunham as
antigas séries japonesas produzidas para televisão (e quem jamais pôde
acompanhar tais séries, para que se tenha uma noção do que estou mencionando,
pode muito bem observar um exemplar destes alienígenas inserido no clipe “Testify” da ótima banda californiana
Rage Against the Machine, facilmente encontrado no Youtube).
O tom de voz que
o ator Seth Macfarlane empresta ao personagem é muito conveniente e confere ao
mesmo o sotaque alemão necessário para a constituição deste. Os trejeitos
desajeitados de Krauss também são bastante engraçados e contam muitos pontos a
favor da caracterização do indivíduo. A única ressalva que faço ao personagem é
justamente à composição física (e desta vez me refiro à composição física, e
não artística e/ou dramática conforme havia mencionado a pouco) deste. Krauss
é, na realidade, um espírito que utiliza uma roupa confeccionada pelo Prof.
Bruttenholm, cujo interior ajuda a manter todo o seu ectoplasma concentrado.
Pois é, mais absurdo que isso, impossível.
A direção de del
Toro, por sua vez, parece alternar entre altos e baixos. Ao mesmo tempo em que
o diretor se vê capaz de utilizar a excelente direção de arte de Peter Francis,
a fim de dar vida a seres para lá de interessantes (como é o caso do monstro
gigantesco que, sempre que ferido, deixa um curioso rastro verde no chão que
logo se converte em um majestoso limbo) e a lugares extremamente criativos
(como é o caso do Mercado Negro dos Trolls), o mesmo não se vê capaz de criar
ângulos realmente interessantes enquanto conduz as seqüências de ação, fato
que, certamente, dramatizaria muito mais as mesmas.
E já que as tais
seqüências de ação foram levemente arranhadas no parágrafo acima, nada mais
correto e conveniente do que destrinçá-las aqui, uma vez que, sejamos francos,
as pessoas que vão aos cinemas assistir a este “Hellboy II - O Exército Dourado” almejam, acima de tudo, serem
consumidos por uma ação realmente cativante. Se há um ponto forte nas
seqüências de ação do filme em questão, este reside na distribuição destas ao
longo da obra, fato que faz com que o mesmo jamais se torne cansativo.
Entretanto, se
há um ponto fraco inserido no contexto destas, este diz respeito à composição
quase invulnerável do protagonista do filme. São raras as cenas onde
presenciamos Hellboy correndo sério risco de vida. Até mesmo quando o
protagonista do longa enfrenta criaturas maiores e, aparentemente, mais fortes do
que ele, tais embates acabam revelando-se curtos demais e carentes de forte
emoção, como é o caso das cenas onde o super-herói enfrenta a gigantesca
criatura verde (que já fora citada) e o monstruoso Sr. Wink (que acaba saindo
de cena bem mais cedo do que realmente deveria).
Contudo, a
ausência de real periculosidade que Hellboy enfrenta nas seqüências de ação
contidas nos primeiro e segundo atos, é parcialmente compensada durante o seu
terceiro ato, quando o personagem passa a correr total e real risco de vida (em
uma cena, em particular, este quase vem ao óbito), fato que acaba cativando o
espectador.
Tendo como maior
argumento a seu favor os motivos pelos quais o seu principal antagonista é
impulsionado, “Hellboy II - O Exército
Dourado” acaba falhando ao não desenvolver de uma forma mais ampla e
complexa o vilão da estória, extraindo assim uma atuação involuntariamente
caricata por parte de Luke Goss. Em contrapartida, os demais personagens do
filme são explorados de um modo deveras satisfatório, em especial no que diz
respeito à dinâmica efervescida entre eles, e todos os demais atores rendem
atuações convincentes. A direção de Guilhermo del Toro é satisfatória,
principalmente quando utiliza a soberba direção de arte de Peter Francis a fim
de dar vida a criaturas e locais verdadeiramente fantásticos (e neste caso, a
palavra “fantásticos” assume caráter ambíguo), mas o diretor falha ao não
conseguir criar ângulos realmente cativantes com a sua câmera, algo que poderia
dar mais vivacidade às cenas de ação inseridas no longa. E falando em tais
seqüências de ação, é uma pena que as mesmas, apesar de serem muitíssimo bem
distribuídas ao longo da projeção, não consigam cativar tanto durante os dois
primeiros atos, uma vez que raramente põem em risco à vida do protagonista. Os
alívios cômicos inseridos no longa são outros aspectos que alternam entre altos
e baixos, mas funcionam muito bem em sua grande maioria (como maior exemplo
disto cito um diálogo carregado com um excelente humor negro inserido no roteiro:
“___ Eu não sou um bebê, eu sou um tumor!”).
Mesmo com muitas falhas, “Hellboy II – O
Exército Dourado” se revela uma ótima opção para o fim de semana.