
Compreenda melhor o nosso método de avaliação.
Corro sério
risco, ao criticar o filme em questão, de entrar em total contradição com os
meus princípios profissionais. Como crítico de Cinema, jamais deixei de avaliar
um determinado filme pondo de lado a condição deste como obra de Arte.
Entretanto, não há como negar que Cinema também é entretenimento. Mas mesmo ao
analisar um filme como mero entretenimento, deve-se sempre adotar certos
princípios ao criticá-lo e, dentre estes princípios, um dos mais importantes é
exigir que a obra conte, ao menos, com uma estória bem feita. Ao assistirmos a
“O Procurado” não podemos dizer que a
estória seja das melhores, afinal de contas, a mesma depende de uma vasta gama
de absurdos para funcionar, mas não há como negar que, se a trama não é das
melhores, a abordagem que a mesma realiza em cima de seu protagonista é
fantástica, e só isso, ao menos para mim, já faz com o roteiro deste longa
mereça algum respeito. No mais, a obra também funciona magistralmente como obra
de entretenimento e se revela uma diversão mais do que garantida para os que
optarem por conferi-la nos cinemas.
Ficha
Técnica:
Título Original: Wanted
Gênero: Ação
Tempo de Duração: 110 minutos
Ano de Lançamento (EUA / Alemanha): 2008
Site Oficial: http://www.wantedthemovie.org/
Estúdio: Universal Pictures Ltda. / Spyglass Entertainment
Distribuição: Universal Pictures Ltda.
Direção: Timur Bekmambetov
Roteiro: Michael Brandt, Derek Haas e Chris Morgan
Produção: Jim Lemley, Jason Netter, Marc E. Platt e Iain Smith
Música: Danny Elfman
Direção de Fotografia: Mitchell Amundsen
Desenho de Produção: John Myhre
Direção de Arte: David Baxa, Patrick M. Sullivan Jr., Martin Vackar e Tomas
Voth
Figurino: Varvara Avdyushko
Edição: David Brenner
Efeitos Especiais: Bazelevs Production, Ulitka Studio, Hammerhead
Productions, Main Road Post, Hatch Production, Framestore CFC, Hydraulx, Matte
Painting UK Ltd, Universal, Escape Studios e Tinslay Transfers.
Elenco: James McAvoy (Wesley Allan Gibson), Angelina Jolie (Fox), Morgan
Freeman (Sloan), Terence Stamp (Pekwarsky), Thomas Kretschmann (Cross), Common
(Gunsmith), Kristen Hager (Cathy), Marc Warren (Reparador), David O’Hara (Sr.
X), Konstantin Khabensky (Exterminador), Dato Bakhtadze (Açogueiro), Chris
Pratt (Barry), Lorna Scott (Janice), Sophiya Haque (Puja), Brad Calcaterra
(Assassino Max Petridge), Brian Caspe (Farmacêutico), Mark O'Neal (Co-Artesão)
e Bridget McManus (Caixa do Supermercado).
Sinopse: Wesley Allan Gibson (James
McAvoy) era um típico jovem estadunidense. Frustrado com a sua vida e sem
quaisquer perspectivas na mesma, o rapaz é surpreendido quando Fox (Angelina
Jolie) lhe informa que o seu pai era membro de uma fraternidade de assassinos
dotados de super-poderes cujo maior propósito é manter o equilíbrio mundial
(principalmente no que diz respeito à justiça). Uma vez que Gibson aparenta ter
herdado as habilidades do pai, Sloan (Morgan Freeman) convida o mesmo a
participar da fraternidade e o atribui a tarefa de exterminar a pessoa que
assassinou o seu progenitor.
Wanted – Trailer:
Crítica:
Em um determinado
momento de “O Procurado”, um homem
corre pelos corredores de um dos últimos andares de um prédio comercial em uma
velocidade completamente fora da normal, salta pela janela de um escritório,
dispara cerca de quatro a seis tiros para todos os lados, mata aproximadamente
quatro pessoas armadas e cai no corredor de um edifício situado ao outro lado
da rua, paralelo ao que estava outrora.
Achou absurda a
situação descrita no parágrafo anterior? Espere só até testemunhar as
seqüências onde os protagonistas dão saltos mirabolantes (e não factíveis aos
olhos da física, diga-se) com carrões importados, arrancam as asas de moscas em
movimento utilizando para isto a munição de pistolas automáticas e, pasmem,
conseguem alterar a trajetória linear de uma bala disparada por uma arma,
possibilitando com que a mesma trace uma inexplicável curva, desrespeitando
dessa forma, toda e qualquer lei da física que esteja direta ou indiretamente
focada no estudo de vetores.
A propósito, se
há algo que “O Procurado” não faz a
menor questão de respeitar, são as leis da física. Mas não são apenas tais
teorias que o longa se atreve a questionar. A inteligência do espectador também
é posta em jogo aqui. Note, por exemplo, a explicação que o filme nos dá a fim
de justificar os super-poderes peculiares de seus protagonistas: “___ Nossos corações batem a um excesso de
400 batimentos por minuto, enviando um lote de adrenalina para as nossas
correntes sangüíneas que nos permite ver e reagir mais rápido do que o normal.
Apenas algumas pessoas no mundo podem fazer isso.”. Contudo, o roteiro
esqueceu-se de nos esclarecer (ou simplesmente nem fez questão de tentar
esclarecer, o que é mais provável) o porquê de uma pessoa dessas não ter um
enfarto, ou até mesmo um derrame, logo após ter o coração acelerado tão
bruscamente (e sejamos francos, a tergiversação utilizada pelo personagem de
Morgan Freeman, alegando que “___ Com o
tempo aprendemos a controlar isso”, não funciona nem um pouco).
Mas mesmo
contando com uma gama de erros e absurdos não fundamentados pelo roteiro, não
há como negar que o filme de Bekmambetov conta com muito mais acertos do que
erros, principalmente se o encararmos da maneira como este deve ser encarado:
como uma obra de ação altamente descerebrada, à lá “Carga Explosiva”. Contudo, “O
Procurado” é um longa infinitamente superior aos dois filmes da franquia
dirigida por Louis Leterrier. Ao passo em que a bomba estrelada por Jason
Statham se revela unicamente uma ação descerebrada e desprovida de
originalidade, e até mesmo ousadia (no que diz respeito à Arte, é claro), o
longa estrelado por James McAvoy conta com uma direção inovadora (ao menos para
este tipo de filme) e um roteiro que faz total questão de abordar o seu
protagonista da maneira mais satisfatória o possível.
Wesley Allan
Gibson, brilhantemente incorporado pelo escocês McAvoy, é uma espécie de Tyler
Durden, versão Edward Norton, inserido em um filme de ação extremamente pipoca,
o extremo oposto do magnífico “Clube da
Luta”. Sua vida não tem propósito algum e Gibson a questiona
freqüentemente. Seu emprego não faz nada além de lhe frustrar, as pessoas com
quem se vê forçado a conviver cotidianamente nada acrescentam a sua vida (muito
pelo contrário, tornam a mesma ainda mais maçante), sua namorada o trai com o
seu (falso) melhor amigo e, para piorar, o mesmo é portador de Síndrome do
Pânico e se vê obrigado a tomar medicamentos com redundância a fim de controlar
os constantes batimentos cardíacos de que sofre.
Repentinamente,
a vida de Wesley sofre uma mutação grandíssima quando Fox (Angelina Jolie,
fraca e inexpressiva) adentra nela, salva o rapaz de um assassinato e informa a
este que o seu pai era um dos mais influentes membros de uma fraternidade de
assassinos dotados de super-poderes, cuja função principal é manter o
equilíbrio mundial (principalmente no que diz respeito à justiça) exterminando
um indeterminado grupo de pessoas. A partir de então, Wesley passa a fazer
parte de tal fraternidade e, literalmente, abandona a patética e insuportável
vida que levava.
Sejamos francos:
quem de nós nunca se identificou com o personagem de McAvoy? Quem de nós nunca
pensou consigo mesmo: “Por que minha vida é tão insignificante?”? Quem de nós
nunca se irritou e almejou profundamente uma drástica mudança em nossos
cotidianos patéticos e desprovidos de fortes emoções? Pois é, no fim das
contas, somos todos como Wesley Gibson, só não temos coragem de admitir. A
grande maioria da população mundial é frustrada e sente-se insatisfeita consigo
mesma, do contrário, a doença mais comum de nossos tempos não seria a
depressão. Sendo assim, não há como não nos cativarmos com Gibson logo de cara.
E se “O Procurado” se revela um excelente
filme de ação, até mesmo quando não conta com as inerentes cenas de ação, o que
dizer então da sensação que temos quando somos apresentados a estas? Todas, sem
exceção, são tremendamente fantásticas e eletrizantes, desde a brilhante
seqüência inicial (já comentada no primeiro parágrafo desta crítica) até o
eletrizante e otimamente coreografado tiroteio ocorrido no final do longa,
passando por uma das mais impactantes e memoráveis seqüências de ação que já
tive o maravilhoso prazer de testemunhar nas telonas desde o embate entre o
Pérola Negra e o Holandês Voador no razoável “Piratas do Caribe – No Fim do Mundo”. Refiro-me, é claro, ao
tiroteio travado em um trem em movimento, ocorrido no desfecho do segundo ato
do filme.
Não bastassem as
seqüências de ação, por si só, já serem maravilhosas, a direção frenética,
desenfreada e competente de Timur Bekmambetov as torna ainda mais
inesquecíveis. Criando ângulos perfeitos e realizando um eletrizante jogo de movimentação
com as câmeras, o talentoso cineasta russo ainda se aproveita dos excelentes
efeitos visuais do longa para criar planos-seqüências mirabolantes, tais como a
fantástica cena em que as suas câmeras registram o trajeto invertido que a bala
de um rifle segue a fim de atingir o seu alvo.
Aproveitando o
ensejo, uma vez que mencionei os efeitos-visuais do longa, creio que estes
merecem um parágrafo dedicado apenas a eles. Realizando um trabalho muito
parecido com o que tivemos a oportunidade de presenciar no excelente “Matrix”, os responsáveis pelos efeitos
digitais do longa nos brindam com seqüências inesquecíveis. Repare, por
exemplo, na cena que abre o filme, quando o indivíduo se joga contra o vitrô do
corredor do edifício. Fazendo o apropriado uso de uma fascinante técnica de
computação gráfica, os profissionais do filme, envolvidos com esta área, nos
possibilitam a oportunidade de ver todos os cacos de vidro do vitrô contornando
perfeitamente o corpo e a face do sujeito que acabara de se atirar contra o
mesmo. Outro ponto forte residente nos efeitos-visuais do longa é que os mesmos
não são utilizados com o intento de substituir a falta de conteúdo do roteiro,
como acontece com a maior parte dos filmes que investem pesado neste quesito
(não sei porque me lembrei de “Transformers”
agora), mas sim com o propósito de conferirem uma carga maior de
verossimilhança às suas cenas de ação (mencionar a palavra “verossimilhança” ao
se criticar um filme como este é algo um tanto o quanto discrepante,
principalmente quando nos referimos às cenas de ação dos mesmos).
Finalizando este
texto da maneira de praxe, ou seja, realizando uma compilação de todas as
qualidades e defeitos do filme, citados na crítica, de modo objetivo, direto e
consistente: “O Procurado” conta com
um roteiro recheado das mais absurdas e implausíveis seqüências de ação já
abordadas pelo Cinema nos últimos tempos e a justificativa para tais seqüências
se revela ainda mais ilógica que as mesmas. Mas ainda assim o filme conta com
reviravoltas convenientes e surpreendentes, uma abordagem para lá de magistral
tecida em cima de seu protagonista, regada por uma excelente atuação de James
McAvoy e uma direção frenética e revolucionária de Timur Bekmambetov que, junto
de efeitos visuais sensacionais, tornam as fantásticas seqüências de ação do
longa (que figuram facilmente entre as melhores já realizadas pelo Cinema neste
início de século) eletrizantes e inesquecíveis.
Avaliação Final:
8,0 na escala de 10,0.
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