Fugindo um pouco
do convencional, pretendo fazer desta pré-crítica uma espécie de justificativa
para várias das mudanças que passarei a adotar em meus textos a partir de
agora. Comecemos pelo tamanho dos mesmos. As últimas críticas que postei neste
site possuíam, aproximadamente, cerca de 2.000 palavras, tendo como resultado
críticas muito extensas e que, além de tomarem um tempo enorme em meu cotidiano
(já que minha vida está mais atribulada do que nunca, impossibilitando com que
eu possa dedicar-me muito tempo ao Papo Cinema, que é o que eu mais gosto de
fazer), tomam muito tempo também do leitor que, geralmente, não possui
disponibilidade o bastante a fim de ler um texto com mais de 2.000 palavras dissertando sobre um determinado filme. Outra mudança que adotarei a partir de
agora diz respeito às fichas técnicas dos filmes, uma vez que não tenho
encontrado mais tempo para pesquisar o responsável por cada aspecto do longa
(direção, roteiro, elenco, direção de arte, fotografia e etc...), irei
identificar agora apenas os responsáveis pelas principais características de
uma obra cinematográfica, ou seja, diretor, roteirista e elenco. Também realizarei mudanças no que diz respeito ao parágrafo final da crítica, que não mais será um resumo da
mesma. Concluí que, uma vez que meus textos passarão a ter, no máximo, 1.000
palavras, a partir de agora, o leitor não terá necessidade de ler apenas um
resumo da análise, caso não tenha tempo de ler a mesma inteira, uma vez que
1.000 palavras podem, facilmente, ser lidas em cerca de dois minutos e,
convenhamos, 120 segundos de leitura não fazem mal a ninguém. Justificadas às
mudanças, vamos agora à análise deste ótimo, embora falho em alguns aspectos,
filme de horror.
Ficha Técnica:
Título Original: The Mist.
Gênero: Horror.
Ano de
Lançamento: 2007. Nacionalidade: EUA.
Tempo de
Duração: 126 minutos. Diretor: Frank Darabont. Roteirista: Frank Darabont, baseado em obra-literária
de Stephen King. Elenco:
Thomas Jane (David Drayton), Marcia Gay Harden (Mrs. Carmody), Laurie Holden (Amanda
Dumfries), Andre Braugher (Brent Norton), Toby Jones (Ollie Weeks), William
Sadler (Jim), Jeffrey DeMunn (Dan Miller), Frances Sternhagen (Irene Reppler), Nathan
Gamble (Billy Drayton), Alexa Davalos (Sally), Chris Owen (Norm), Sam Witwer
(Private Jessup), Robert C. Treveiler (Bud Brown (como Robert Treveiler) e David
Jensen (Myron).
Sinopse: Após um forte nevoeiro cobrir uma
minúscula cidade interiorana, estranhos acontecimentos passam a aterrorizar os
habitantes da mesma. A fim de se proteger dos ocorridos, um grupo de pessoas
entram em um supermercado, porém, conforme o tempo vai passando, o nevoeiro vai se revelando cada vez mais perigoso e o estabelecimento comercial se revela um abrigo bastante vulnerável.
The Mist – Trailer:
Crítica:
Uma coisa não se
pode negar: Frank Darabont, definitivamente, sabe como criar um clima
irretocável de suspense. Durante uma seqüência deste “O Nevoeiro”, vemos os protagonistas da estória irem ao supermercado
durante o dia, enquanto uma atípica névoa cobre uma pequena cidade interiorana.
Até então, tudo é absolutamente natural, eis que a neblina aumenta cada vez
mais e, repentinamente, surge um homem com o nariz escorrendo sangue e grita
que uma determinada pessoa morreu, logo após adentrar a névoa. Um outro
indivíduo, a fim de averiguar o que está acontecendo, decide infiltrar-se no mesmo
nevoeiro e então escutamos um forte grito emitido pelo mesmo. Tementes de que a névoa
seja uma nuvem de resíduos químicos provenientes de uma indústria local, as
pessoas, completamente assustadas, se trancam dentro do supermercado. Todos se
acalmam, até que um forte barulho é ouvido na porta dos fundos do
estabelecimento comercial e, com o intento de checar o que está acontecendo, um
jovem rapaz é assassinado por uma criatura que possui enormes tentáculos.
Que a cena
supracitada conta com uma infinidade de clichês característicos do gênero
“horror”, isso não há como negar (temos a mesma cidadezinha interiorana de
sempre, a mesma neblina de sempre (com a diferença de que esta é muito mais
intensa que as dos demais filmes), os mesmos gritos desesperados de horror de
sempre, entre muitas (e ponha muitas nisso) outras coisas), mas também não há como
negar que Darabont conduz a seqüência inteira de maneira genial e, apesar de
estar a anos luz de realizar um trabalho tão excepcional quanto realizou nos
excelentes “Um Sonho de Liberdade” e
“A Espera de Um Milagre”, o diretor
consegue criar um clima de suspense e urgência soberbamente, uma vez que o
roteiro falha visivelmente neste quesito, principalmente no intróito da trama.
Darabont acerta
também quando tenta inserir o espectador na estória. Conduzindo a câmera de uma
maneira propositadamente tremida e desgovernada, o diretor faz com que nós, que
nos encontramos do outro lado das telonas, tenhamos a sensação de estarmos
assumindo os olhos de um terceiro, de um personagem que não participa
ativamente da trama, mas encontra-se no interior do estabelecimento e se mostra
capaz de testemunhar de perto, tudo o que se passa.
Mas as
qualidades deste longa jamais se resumem ao ótimo trabalho do cineasta francês responsável
por “Um Sonho de Liberdade”. Ao passo
em que a trama se desenrola, o mesmo roteiro, que no início parecia não criar o
clima tenso necessário com o propósito de cativar o espectador, nos insere em
situações cada vez mais inquietantes. Outro acerto grandessíssimo de Darabont
(e agora, refiro-me ao mesmo como roteirista, e não diretor) é a maneira como
este decidiu abordar cada personagem. Se a estória por si só, já não é das
melhores, ao menos os personagens que a compõem se mostram interessantes o
bastante.
E é justamente
destes personagens que o longa consegue exportar ao espectador aquilo que ele
tem de mais interessante: os debates moldados nas discussões atuais que
envolvem diversas questões convividas pela sociedade estadunidense atual,
dentre os quais cito: experiências científicas de alto risco, conspirações
políticas e debates religiosos. A propósito, é incrível vermos o modo como o
filme mostra que a ciência e a religião, quando elevadas à máxima potência, se
mostram requisitos inerentes a uma sociedade decadente e em pânico.
Antes de
encerrar, gostaria de comentar o final do longa, este que vem sendo muito
criticado negativamente. Particularmente, creio que Darabont realizou aqui um
desfecho formidável, justamente por ser perturbador e nos provar o quão
decisões tomadas de maneira precipitada e por medidas drásticas podem provocar
danos irreversíveis em nossas vidas.Foi graças a este final que Darabont anulou, com total
sapiência, vários clichês que seriam capazes de transformar este “O Nevoeiro” em um filme de horror apenas
convencional.
É como diria o
mestre Alfred Hitchcock: “___ Antes
iniciar em um clichê, do que terminar no mesmo!”. E é justamente isso o que
presenciamos aqui, um roteiro que inicia no "lugar-comum", mas consegue, com maestria, fugir da mesmísse.