Detesto passar
pela sensação a qual estou passando agora, após terminar de assistir a este “Yojimbo”.
Não, nada pessoal contra o filme, que por sinal é excelente, mas sim quanto ao
fato de ter de avaliá-lo do ponto de vista artístico. Só para citar um exemplo,
quando escrevi uma crítica sobre “Platoon” (nunca cheguei a publicar tal
crítica) mencionei na mesma que achava o filme fabuloso, perfeito, mas
artisticamente falando o mesmo possuía algumas falhas e estas não poderiam
passar batidas. O mesmo ocorre com este “Yojimbo”, com a diferença de
que, desta vez, darei ao mesmo uma nota mais alta do que eu acredito que ele
mereça. O pior de tudo é que estou fazendo isto me espelhando no remake
que Sergio Leone lançou em cima do filme de Kurosawa, o clássico de western
“Por um Punhado de Dólares”. Reconheço que este “Yojimbo”,
artisticamente falando, é superior ao longa protagonizado por Clint Eastwood,
mas do ponto de vista pessoal, considero o filme italiano bem mais cativante
(mesmo atribuindo nota 8,5 para este e nota 9,0 para a produção japonês).
Enfim, estes são os ossos do ofício, não é sempre que se pode ser extremamente
subjetivo, não é mesmo?
Ficha
Técnica:
Título Original: Yojimbo.
Gênero: Ação.
Ano de Lançamento: 1961. Nacionalidade: Japão.
Tempo de Duração: 110 minutos. Diretor: Akira Kurosawa. Roteirista: Akira Kurosawa e Ryuzo Kikushima. Elenco: Toshirô Mifune (Sanjuro Kuwabatake / The Samurai), Tatsuya
Nakadai (Unosuke), Yôko Tsukasa (Nui), Isuzu Yamada (Orin), Daisuke Katô (Inokichi),
Seizaburô Kawazu (Seibei), Takashi Shimura (Tokuemon), Hiroshi Tachikawa (Yoichiro),
Yosuke Natsuki (Filho de Kohei), Eijirô Tono (Gonji, taverneiro), Kamatari
Fujiwara (Tazaemon) Ikio Sawamura (Hansuke), Atsushi Watanabe (O Confeccionador
de Caixões), Susumu Fujita (Homma), Kyu Sazanka (Ushitora), Kô Nishimura (Kuma),
Takeshi Katô (Ronin Kobuhachi), Ichirô Nakaya (Primeiro Samurai), Sachio Sakai (Primeiro
Soldado), Akira Tani (Kame), Namigoro Rashomon (Kannuki o Gigante), Yoshio
Tsuchiya (Kohei), Gen Shimizu (Magotaro), Yutaka Sada (Matsukichi), Shin Otomo (Kumosuke)
e muitos outros.
Sinopse: Ao chegar em um vilarejo no Japão tomado por duas facções criminosas,
um destemido Samurai vê ali a oportunidade de ganhar muito dinheiro,
trabalhando secretamente para as duas organizações. A partir daí, a
rivalidade entre as duas gangues aumenta cada vez mais, mudando o
destino dos habitantes do vilarejo de forma irreversível.
Yojimbo - Trailer:
Crítica:
Após chegar a um vilarejo
tomado por duas organizações criminosas, um mercenário vê ali a oportunidade de
ganhar muito dinheiro realizando trabalhos sujos às duas facções e colocando
uma contra a outra. A estória soa familiar? Pois é, ela já fôra utilizada
inúmeras vezes pelo Cinema, inclusive em filmes como o western “Por
um Punhado de Dólares” (de Sergio Leone e com Clint Eastwood no elenco) e o
gangster “O Último Matador” (protagonizado por Bruce Willis).
Contudo, este “Yojimbo” conta com uma característica que o coloca a
frente dos demais filmes com a mesma sinopse, foi ele o primeiro filme a
utilizá-la.
Fazendo uso de uma direção de
arte fantástica, a obra (não necessariamente “prima”) de Kurosawa nos
transporta ao Japão do início do Século XIX, em uma vila paupérrima, onde duas
grandes famílias criminosas controlam o local. Contudo, a pequena vila sofre
uma série de mudanças com a chegada de um samurai forte e destemido. A partir
daí, o roteiro nos presenteia com uma seqüência de reviravoltas bastante
convenientes e uma estória interessante o bastante para nos manter entretidos
até o desfecho da mesma.
Além da estória atraente e
das reviravoltas que a mesma possui, o roteiro deste “Yojimbo” ainda
conta com um desenvolvimento bastante interessante de seus personagens, tanto
os primários quanto os secundários. Tomemos por exemplo o protagonista da
estória, Sanjuro Kuwabatake (encarnado por Toshirô Mifune). Apesar de o mesmo
conter vários dos clichês do gênero, tais como: a face inexpressiva, o jeitão
de durão e a frieza adotada para tomar suas atitudes (isso sem contar que ele
sozinho se mostra capaz de matar oito homens de uma única vez), o personagem,
vez ou outra, demonstra uma ponta de humanismo em seu gélido coração ou então
realiza uma piada satirizando a situação pela qual está passando, fato que
torna o personagem mais, digamos, humano.
O desenvolvimento da
rivalidade entre as famílias de Seibei (interpretado por Seizaburô Kawazu) e
Ushitora (Kyu Sazanka) também é outro ponto extremamente salientado pelo
roteiro, que parece fazer a máxima questão de manter o espectador informado
sobre tudo o que está acontecendo entre ambas as facções, sem dar prioridade a
uma ou a outra (diferentemente de “Por um Punhado de Dólares” que dá
muito mais crédito à família dos Rojos do que à família dos Baxters).
A direção de Akira Kurosawa,
como sempre, está perfeita. É incrível vermos como o diretor é capaz de criar
ângulos excepcionais com a sua câmera e mais impressionante ainda é podermos
notar a maneira eficiente com que ele “casa” diversos aspectos do longa,
fazendo com que todos andem em perfeita harmonia. Ou melhor, todos não, quase
todos.
Disse “quase todos” pois a trilha-sonora
infelizmente é falha, além de repetitiva e cansativa. Para um filme desta
categoria, Kurosawa deveria ao menos ter sido mais cuidadoso na escolha da
trilha, esta que vem a ser uma das características que, indubitavelmente, mais
colaboram com a relação público-película, e ter selecionado algo mais cativante
e empolgante.
Os demais aspectos que não
comentei neste texto são todos perfeitos, realçando a fotografia que dá ainda
mais charme ao filme que, apesar de não ser perfeito, é um marco na história da
Sétima Arte, tanto que ganhou vários remakes que, artisticamente
falando, não superam o mesmo.