Não sou um grande fã de filmes sádicos e com teor altíssimo
de violência (em especial quando tal violência pode ser encarada como
“gratuita” ou desnecessária), sendo assim, detesto a maior parte dos filmes de
suspense e horror que alicerçam o seu roteiro nas gigantescas quantias de
sangue derramadas durante o seu desenrolar e é justamente por esta razão que eu
não almejava assistir a este “Violência Gratuita”, uma vez que o fiz
apenas por motivos profissionais. Contudo, não há como negar que o mesmo
se revelou uma grata surpresa (devo dizer que não assisti ao filme original
produzido em 1997). Em primeiro lugar, o longa é realmente tenso e assustador,
em segundo lugar, é um filme narrativamente inovador e está muito além de
baboseiras como “O Albergue” e, em terceiro e último lugar, o mesmo se
revela uma crítica extremamente bem feita ao modo como a violência é vendida a
nós através da Arte (principalmente através da Televisão e do Cinema) e à
maneira como esta “venda” influencia nossas vidas negativamente.
Ficha Técnica:
Título Original: Funny Games.
Gênero: Suspense.
Ano de Lançamento: 2008. Nacionalidade: Estados Unidos / França.
Tempo de Duração: 111 minutos. Diretor: Michael Haneke. Roteirista: Michael Haneke. Elenco: Naomi Watts (Ann), Tim Roth
(George), Michael Pitt (Paul), Brady Corbet (Peter), Devon Gearhart (Georgie),
Boyd Gaines (Fred), Siobhan Fallon (Betsy), Robert LuPone (Robert), Susanne C.
Hanke (Cunhada de Betsy) e Linda Moran (Eve).
Sinopse: Uma família
rica e aparentemente feliz recebe a visita inesperada e indesejada de dois
indivíduos sádicos e perturbados que os seqüestram e passam a externar os seus
instintos primitivos e psicóticos realizando um doentio jogo, onde as chances
dos reféns escaparem com vida são mínimas.
Funny Games – Trailer:
Crítica:
É difícil avaliar “Violência Gratuita” da mesma forma que se avalia um
filme convencional, pois, para ser sincero, não creio que o mesmo assuma tal
formato. A refilmagem quadro-a-quadro da obra-prima de Michael Haneke se
revela, na realidade, uma espécie de folder impresso com o intento de
ilustrar a seu público alvo uma campanha antiviolência. Afinal de contas, como
poderíamos encarar como filme uma obra cinematográfica onde o vilão olha para a
câmera duas vezes e conversa diretamente com o público? Pior ainda, como
poderíamos encarar como filme uma obra cinematográfica onde o vilão, a fim de
evitar a morte de uma pessoa, usa um controle remoto para rebobinar o longa e
evitar que isto aconteça? Pois é, esta é a prova definitiva de que “Violência
Gratuita” foi uma obra cinematográfica feita para não ser analisada como um
filme comum, e sim como uma crítica à maneira como a violência é utilizada com
o intento de preencher os vazios existenciais nas patéticas vidas das pessoas
comuns (no caso, nós mesmos, simples mortais).
O filme é, acima de tudo, um estudo sobre o modo como a
violência gera ainda mais violência. Vide o intróito da película, para se ter
uma idéia do que estou tentando afirmar. Começamos com alguns ovos que se
quebram, em seguida temos um tapa no rosto, logo após um golpe desferido por um
taco de golfe e, quando nos damos conta, uma família inteira é aprisionada e
torturada por uma dupla de jovens sádicos que arquitetaram toda aquela
situação.
Olhando por este prisma, podemos notar que toda a violência
inserida no filme teve o seu início através de um motivo pífio, no caso, uns
simples ovos que se quebraram no chão. E por mais que a situação previamente
citada tenha sido voluntariamente planejada pelos delinqüentes, não há como não
ligarmos o fato abordado nas telonas com a maior parte dos assassinatos
ocorridos diariamente. Tomemos como exemplo uma reles batida de carro. Quantas
pessoas, aparentemente inofensivas, já não cometeram homicídios apenas por
terem o seu veículo amassado por um outro indivíduo?
Outra questão abordada pelo filme é o modo como nos
cativamos com a violência demonstrada na televisão e nos cinemas, muitas vezes
exibidas de maneira amplamente maquiada. Vide desenhos animados como “Pica-Pau”,
“Tom & Jerry” e “Beavis & Butt-Head” (e não é a toa que
os vilões do filme utilizam os nomes dos protagonistas do desenho da MTV a fim
de se alcunharem) que, aparentemente, se mostram inofensivos, quando na
verdade, de uma forma ou de outra, faz a violência soar divertida aos olhos de
quem os assiste (e não é involuntária a magnífica decisão do roteiro em inserir
diálogos no filme do tipo: “___ A violência pode ser divertida!”).
O que podemos esperar então de uma criança que acha normal
e divertido o sadismo empregado pelo Pica-Pau ou pelo rato Jerry? Pois é,
podemos esperar que tal criança cresça vendo produções como estas e que vá se
acostumando, cada vez mais, com a violência empregada de forma ainda mais
enérgica e desumana em imbecilidades como “Jogos Mortais” (exceto o
primeiro episódio que apresenta uma justificativa convincente para tudo o que
está acontecendo ali) e “O Albergue”.
O roteiro prima também por ser extremamente realista a
ponto de, em momento algum, se render aos maneirismos hollywoodianos e
tentar agradar as pessoas que estão assistindo ao longa. Não espere aqui um
final feliz e amarradinho, isto faria com que toda a mensagem que o filme nos
almeja passar fosse por água abaixo. “Violência Gratuita” foi escrito e
filmado com o intento de chocar, de nos deixar abismados, de fazer com que
sintamos repugnância por ele e pelos demais filmes do gênero. Ao invés do final
convencional, temos aqui um desfecho revoltante, mas aí fica a pergunta no ar:
como teria sido na vida real?
Se uma dupla de jovens delinqüentes, que passou a vida toda
consumindo a violência vendida pela televisão, a ponto de tornarem-se sádicos e
cruéis ao extremo, seqüestrasse você e o restante de sua família e os
mantivesse aprisionados em um cativeiro distante de toda a civilização, quais
as chances de vitória que vocês teriam? Exato, é triste termos de admitir, mas
as chances seriam mínimas. Gostaria também de perguntar ao estimado leitor
quantos seqüestros, arquitetados por pessoas que cresceram em um ambiente
violento proporcionado pela televisão, não tiveram um final infeliz na vida
real? Pois é, é triste, mas é real, e devemos encarar tal fato de frente.
No mais, além de realizar soberbamente uma abordagem
filosófica e sociológica sobre a violência, Haneke se mostrou capaz de criar um
suspense verdadeiramente tenso, inovador e original. Sua direção é soberba e
conta com ângulos excepcionais e o elenco se mostra fantástico e extremamente
entrosado. O longa só falha no que diz respeito à falta de propósito de sua
existência, uma vez que, em 1997, o mesmo Michael Haneke roteirizou e dirigiu
um filme com o mesmo nome, a mesma estória, os mesmos personagens, enfim, um
filme exatamente igual a este, quadro a quadro, diálogo a diálogo, centímetro a
centímetro. Seria isso uma empreitada realizada com o intento de fazer com que
o público estadunidense vá aos cinemas assistir a sua obra-prima falada na
língua da terra do Tio Sam, uma vez que, de tão ociosa e preguiçosa que aquela
raça é, eles raramente assistiriam ao longa original pelo simples fato deste
ser legendado? Pode apostar que sim.