
Compreenda melhor o nosso método de avaliação.
Não faz muito tempo que assisti a este “Metropolis”
pela primeira vez. Foi durante umas férias de julho, em 2.006, salvo engano de
minha parte. Loquei-o na vídeolocadora com grandes expectativas, afinal de
contas, qual cinéfilo que se preze não gostaria de conferir a obra-prima de
Fritz Lang, que é também considerada o maior marco na história do Cinema
expressionista alemão? As expectativas aumentaram ainda mais quando li uma
crítica afirmando que o longa possuía críticas muito bem desenvolvidas contra o
Capitalismo, contra a dependência que o homem contemporâneo possui em relação
às máquinas e a cruel exploração que a burguesia exerce sobre o proletariado.
Enfim, é o filme que todo o cinéfilo revoltado com o sistema adoraria assistir
e, no meu caso, não foi diferente, principalmente agora que o assisti pela
segunda vez e pude observar a obra com um olhar ainda mais crítico.
Ficha
Técnica:
Título Original: Metropolis.
Gênero: Ficção Científica.
Ano de Lançamento: 1927.
Nacionalidade: Alemanha.
Tempo de Duração: 136 minutos.
Diretor: Fritz Lang.
Roteirista: Thea von Harbou e Fritz Lang.
Elenco: Gustav Fröhlich (Freder
Fredersen), Brigitte Helm (Maria / Robô), Alfred Abel (Johhah "Joh"
Fredersen), Rudolf Klein-Rogge (C.A. Rotwang), Fritz Rasp (Slim), Theodor Loos
(Josaphat), Heinrich George (Grot) e Erwin Biswanger (Georg).
Sinopse: Metropolis é uma cidade
dividida em duas partes: a “Cidade Superior”, onde a burguesia reside, e a
“Cidade dos Operários”, habitada pelo proletariado. Os habitantes da “Cidade
dos Operários” têm como mentora intelectual Maria, que pede aos mesmos que não
se revoltem contra a classe alta a fim de exigirem melhores condições de
trabalho e o façam de um modo menos radical. Maria acaba conhecendo Freder, o
filho de Joh Fredersen, um dos magnatas da cidade, e mantendo um relacionamento
amoroso com este. Segundo a moça, Freder é o messias que trará esperança aos
operários, contudo, o pai do rapaz decide incitar uma revolução na “Cidade dos
Operários” e pede para que o cientista Rotwang crie um andróide com a mesma
aparência de Maria, para que assim esta possa aconselhar os operários a se
revoltarem.
Metropolis – Trailer:
Crítica:
Considerado um
marco na história do Cinema mudo (e até mesmo na história do Cinema de forma
geral, diga-se de passagem), “Metropolis”
é, acima de tudo, uma verdadeira obra-de-arte contemporânea (expressionista,
para ser mais exato) mister para todos aqueles que se dizem amantes do (bom) Cinema.
Em termos de arte expressionista alemã, temos Edward Münch e sua obra-prima: o
quadro “O Grito”, representando o Magnum Opus da pintura, durante esta
fase da arte contemporânea. Fritz Lang e sua obra-prima, o filme “Metropolis”, porém, podem ser
considerados o Magnum Opus do cinema
expressionista alemão e, convenhamos, o diretor e o longa fazem jus a todo o glamour que existe por trás de ambos.
A propósito,
seria mais do que justo por parte deste que vos escreve dedicar este parágrafo
inteiro a fim de comentar o brilhantismo com que Lang rege sua obra por traz
das câmeras. Pessoalmente, creio que a direção do alemão nesta película só não
pode ser considerada superior ao trabalho que Orson Welles realizou no
estupendo “Cidadão Kane”, sendo
assim, encaro a mesma como a segunda melhor direção dentre as quais já tive a
oportunidade de prestigiar ao longo de minha vida. O grande destaque do
trabalho do diretor alemão fica por conta dos planos perfeitos que este
consegue criar, tais como a cena em que ele divide a tela em várias partes e é
capaz de focalizar os olhos de muitas pessoas simultaneamente, fazendo o uso de
uma única tomada. Outros destaques fantásticos são: as tomadas onde Lang (com a
ajuda de uma direção de Arte que vai além da perfeição) nos apresenta a uma
visão panorâmica da cidade de Metropolis; as cenas em que o diretor enfoca
diversas pessoas distribuídas pela tela durante vários momentos da película (e
vale dizer que, para a realização da obra, foram necessários cerca de 36.000
figurantes, tamanha a grandiosidade da mesma); a maneira como as cenas da
enchente, da morte dos funcionários na “Casa das Máquinas” e a clássica cena
onde o protagonista Freder tem a visão da máquina como sendo um monstro que
devora os pobres trabalhadores, são conduzidas pelo diretor, além de muitos outros
destaques que o filme possui.
Tecnicamente
falando, o longa é esplendoroso. Além de conter uma direção de arte que vai
além da perfeição (assim como eu dissera no parágrafo anterior) e que nos
apresenta a uma cidade futurista onde toda a sua melancolia e claustrofobia nos
é demonstrada através de arranha-céus magníficos e, ao mesmo tempo, sombrios e
assustadores, helicópteros voando ao redor da cidade, auto-estradas
congestionadas, poluição em demasia e muito mais, “Metropolis” conta também com efeitos visuais tão fulgentes que até
mesmo nos dias atuais, onde filmes como “O
Senhor dos Anéis” se revelam irretocáveis neste quesito, consegue se
destacar com maestria, a ponto de se revelar revolucionário mesmo após ter
passado quase um século desde a sua criação.
As atuações do
elenco, apesar de um tanto o quanto exaltadas durante alguns momentos (até
mesmo porque é praticamente impossível os atores atuarem de outra forma, tendo
em vista que o filme é mudo e a melhor maneira destes se expressarem é fazendo
o uso de expressões exaltadas, como as que acontecem aqui), são todas ótimas e
extremamente convincentes. A química exalada por todos os atores é cativante e
o entrosamento entre estes é invejável. É o tipo de qualidade que era muito
mais comum naqueles tempos, quando atores não ganhavam rios de dinheiro e
faziam o seu trabalho por amor à profissão e à Arte, diferentemente do que se
vê atualmente.
O roteiro, por
sua vez, também é fabuloso e conta com uma dose altíssima de reflexões que o
espectador poderá desfrutar durante o desenrolar da película inteira.
Utilizando como pano de fundo uma estória de amor (o mocinho rico se apaixona
pela mocinha pobre e o romance entre ambos é impossível graças à diferença
financeira entre eles) que, atualmente, pode ser encarada como clichê, mas na
época de lançamento do filme, não, o longa realiza críticas extremamente
ferrenhas ao sistema capitalista, à maneira como a burguesia explora o
proletariado e à total dependência do ser humano perante as máquinas.
A exploração que
a burguesia realiza sobre o proletariado pode ser notada durante quase todo o
filme, a começar pela brilhante idéia que Lang teve ao decidir dividir a cidade
de Metropolis em duas partes: a Cidade Superior (habitada pela burguesia) e a
Cidade dos Operários. Para que a primeira possa funcionar corretamente, é
necessário que os operários se esgotem de cansaço e arrisquem as suas vidas
trabalhando na Casa das Máquinas (situada um pouco acima da Cidade dos
Operários). Enquanto isso, os burgueses passam o dia inteiro se divertindo na
Cidade Superior. Não resta dúvidas de que tal metáfora é uma perfeita crítica
aos burgueses, insinuando que os mesmos obtém suas vidas confortáveis às custas
do labor da grande maioria da população, que além de não possuir quaisquer
perspectivas de vida, são encarados como meras peças substituíveis que mantém o
sistema funcionando.
E falando no
sistema econômico, são claros os ataques que Lang realiza ao Capitalismo.
Podemos notar facilmente o quão os poderosos de Metropolis manipulam os
operários e visam, acima de tudo, obter lucros pesados à custa do trabalho
destes. Como exemplo disso pode-se citar o intento do grande vilão do filme, o
multimilionário Joh Fredersen (pai de Freder, protagonista da estória), que
visa incitar uma revolução na Cidade dos Operários, para que estes se
autodestruam. Desta forma, Fredersen poderá substituir os operários por
andróides, uma vez que a produção destes se mostra muito mais proveitosa e as
despesas com os mesmos se revelam bem menores. No entanto, é justo tirar a vida
de milhares de seres humanos apenas para obter o máximo de lucro o possível,
conforme prega o Capitalismo? Questionamentos como estes são levantados por
Lang a todo o instante nesta sua obra-prima.
Quanto à relação
homem-máquina, o filme não poupa esforços ao abordá-la. Em sua mais clássica
cena, que trata-se da visão que o protagonista Freder tem sobre a máquina assumindo
o lugar de um monstro que se alimenta de homens (no caso, os operários da
cidade), “Metropolis” realiza uma das
mais perfeitas metáforas que o Cinema já fez sobre a submissão humana perante
os avanços tecnológicos. É a cria alimentando-se, literalmente, da carne de
seus criadores. E o que dizer então dos nichos feitos pelos operários na mesma
máquina supracitada a fim de mantê-la em funcionamento? À medida que tais
nichos nela se alojam, percebemos que é como se os funcionários fizessem parte
da máquina, como se fossem algum órgão vital desta. A partir daí, reparamos que
homem e máquina estão se unindo, se tornando inseparáveis.
O final do
filme, por sua vez, é um ponto extremamente subjetivo e polêmico. Muitas
pessoas (intelectuais, dentre estas) o consideram um desfecho de extrema
direita, onde fica claro que a revolução esquerdista não trouxe benefício algum
a nenhuma das classes envolvidas com a mesma. Outras pessoas acham que é o
final que o longa realmente deveria ter, provando que a direita e a esquerda
podem caminhar juntas em harmonia, contanto que haja um mediador interagindo
entre ambas. Há também o grupo de indivíduos que defendem a tese de que o final
mostra a extinção do totalitarismo, uma vez que o proletariado, a partir
daquele instante, passaria a ter uma participação ativa no poder. Minha opinião
sobre o mesmo? Fico com a segunda e a terceira hipótese juntas, mas
independentemente do que Lang quis nos transmitir com a sua “moral da estória”
inserida no final da trama, “Metropolis”
se revela uma inquestionável obra-prima e que, de maneira simples e cativante,
se revela capaz de abordar de forma magistral assuntos que permanecem em pauta até
os dias atuais.
Avaliação Final:
10,0 na escala de 10,0.
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