Havia algum
tempo que eu almejava escrever esta matéria, mas realmente me faltou
oportunidade para dar início a este trabalho. Perdido entre pilhas de processos
de licitação pública no trabalho e livros de direito na faculdade, não
encontrava disponibilidade alguma para pesquisar sobre o assunto e,
principalmente, desenvolver algo relevante sobre o mesmo. Com o início deste
feriadão prolongado (comecei a redigir este artigo no dia 1° de maio do corrente ano), pensei: “É agora ou
nunca!”, e mesmo tendo trazido serviço para casa e estando lotado de
trabalho acadêmico para concluir até segunda-feira no máximo, decidi fazer algo
que todos deveriam fazer e eu mesmo não fazia há muito tempo, não dar a mínima
para com as responsabilidades e colocar o meu hobbie predileto à frente de tudo.
Mas deixando de
tergiversar e falando sobre a matéria em si, o meu intento com a mesma é
realizar um aprofundamento não apenas científico sobre a mais desconhecida era
da história da Sétima Arte, ou seja, o intróito desta, e sim um desenvolvimento
artístico. Claro que durante o desenrolar do texto comentarei sobre os avanços
tecnológicos que colaboraram para que o Cinema avançasse até atingir o nível
que atingiu hoje em dia, mas o meu intento é, primordialmente, comentar os
autores e suas principais obras e a maneira como estes colaboraram para o
avanço da Sétima Arte em si.
PS: Clique com o
botão esquerdo do mouse nos títulos originais dos curtas e terá a oportunidade
de conferir os mesmos em vídeos completos do youtube.
Dizer que o
Cinema teve o seu início aos 28 de dezembro de 1895 através de uma sessão
pública paga, organizada por Antoine Lumière (sim, o pai dos irmãos Lumière),
no Salão do Grand Café de Paris com a exibição do curta “L'Arrivée
d'un Train à La Ciotat” (em português: “A Chegada de um Trem a Cidade”) não deixa de ser uma verdade. Até
mesmo porque, aquela foi a primeira sessão de Cinema de que se tem notícias (e
reza a lenda que, como o público estava completamente desacostumado com esta
recente invenção, ao verem um trem em movimento sairão correndo e gritando do
salão acreditando que o veículo fosse lhes atropelar). Contudo, antes mesmo de
os Lumière concluírem a sua primeira filmagem, outras pessoas tiveram uma
importante contribuição para o nascimento do Cinema.
Em 1876, Eadweard James Muybridge
implantou 24 câmeras fotográficas espalhadas por todo um hipódromo, conseguindo
assim, tirar várias fotos de um cavalo, enquanto o animal se movimentava pela
pista. Fazendo uso de um aparelho criado por ele próprio, alcunhado de zoopraxinoscópio, Muybridge inseriu
as fotografias dentro do mesmo e conseguiu criar uma espécie de animação,
fazendo com que as fotografias fossem exibidas rapidamente dando a ligeira
impressão de que o cavalo realmente encontrava-se em movimento. Em 1882,
Étienne-Jules Marey atualizou a invenção de Muybridge, tornando-a mais completa
e eficaz. Tal aparelho foi de grande utilidade para que Louis Aimée Augustin Le
Prince conseguisse, em 1888, realizar duas filmagens de 2 segundos cada, são
elas: “Roundhay
Garden Scene” (em português: “Cena do Jardim Roundhay”) e “Traffic Crossing Leeds Bridge”
(em português: “Tráfego Cruzando a Ponte
de Leeds”). No entanto, o papel utilizado para a realização de tais
filmagens era muito frágil e a sensação que temos ao vê-las é de o negativo de
uma fotografia em
movimento. Isso sem contar que tal material impossibilitava
uma captação de movimentos que ultrapassasse um período maior do que 2
segundos.
William Kennedy Laurie Dickson, chefe
engenheiro da Edison Laboratories, desenvolveu uma tira de celulóide contendo
uma sequência de imagens que seria a base para fotografia e projeção de imagens
em movimento. Em
1891, Thomas Edison inventou o cinetoscópio,
que vinha a ser uma caixa movida a eletrecidade e utilizava a película
inventada por Dickson, e mesmo fazendo o uso de um material mais resistente e
que possibilitava a projeção de vídeos um pouco (bem pouco para falar a
verdade) mais longos, a qualidade da projeção estava muito aquém do almejado,
conforme mostram os vídeos-testes: “Dickson Greeting” (em português: “Sauadação de Dickson”) e “Newark Athlete”.
Tomando por base a invenção de Thomas
Edison e aperfeiçoando a mesma, Auguste e Louis Lumière criaram um aparelho
portátil que exercia as funções de máquina de filmar, de revelar e de projetar,
e deram ao mesmo o nome de cinematógrafo.
E é aqui que volto a falar do ponto em que comecei este artigo, da primeira
projeção pública da história. Tal exibição foi um verdadeiro sucesso e a data
de ocorrência da mesma é considerada o nascimento do Cinema, fato que os estadunidenses
discordam completamente, pois estes atribuem tal importância a Thomas Edison e
não aos irmãos Lumière.
Se há algo que eu deteste com todas as
forças é ter que dar o braço a torcer e apoiar os estadunidenses e a sua
megalomania, mas desta vez reconheço que eles têm muito mais razão que as
demais pessoas. Apesar de acreditar que o nascimento do Cinema ocorreu
justamente no momento em
que Louis Aimée Augustin Le Prince realizou a filmagem de “Roundhay
Garden Scene”, deve-se admitir que, mesmo os
Lumière tendo sido os primeiros a realizar uma filmagem “limpa” (no sentido de
visibilidade) e atraente o bastante para atraírem um público relativamente
grande a fim de testemunhar o trabalho dos mesmos, além de terem sido os
responsáveis pela primeira projeção voltada ao público, foi Edison quem
desenvolveu o material utilizado pelos franceses e possibilitou que os mesmo
realizassem o famosíssimo “L'Arrivée d'un Train à La Ciotat”, e se olharmos por este
prisma, o gênio estadunidense colaborou mais para o nascimento da Sétima Arte
que os irmãos Lumière em si.
Discussões a parte, passou-se algum
tempo e as sessões de projeções públicas foram se tornando cada vez mais
comuns. Pouco depois da exibição de “L'Arrivée
d'un Train à La Ciotat” (em 1896, para ser mais exato) os
Lumière continuaram realizando diversos curtas-metragens amadores, dentre os
quais o principal fôra “La Sortie de l'Usine Lumière à Lyon” (em português: “Empregados Deixando a Fábrica Lumière em
Lyon”), considerado o primeiro documentário da história do Cinema (fato que
também discordo completamente, até mesmo porque o curta, assim como “A Chegada de um Trem a Cidade”, nada
mais é que uma rápida projeção que capta os movimentos de várias pessoas em
seus respectivos cotidianos, neste caso em específico, o final do dia de
trabalho de um grupo de operários). No mesmo ano, os Lumière lançaram um outro
curta que pode ser considerado extremamente revolucionário do ponto de vista
artístico, “L'arroseur Arrose'” (em português: “O Regador Regado”). É neste curta de
comédia que
testemunhamos, pela primeira vez, a filmagem de uma ficção, com uma dupla de
pessoas realmente atuando. Sim, pois antes dos dois irmãos produzirem este
curta, eles apenas filmavam as pessoas e os cotidianos das mesmas. Tudo era
real, não havia ficção, quiçá atuação por parte de pessoa alguma. Meses mais
tarde, Thomas Edison lança o seu primeiro filme, chamado “Vitascope” (em português: “Vitascópio”), um curta fraquíssimo do ponto de vista tecnológico,
pois além de conter metade do tempo de duração das filmagens realizadas pelos
Lumière, fôra filmado completamente em estúdio e a qualidade da imagem não era
das melhores, mas acrescentou algo de interessante ao Cinema do ponto de vista
artístico. É neste “Vitascope” que vemos o primeiro beijo
da história da Sétima Arte. Isto sem contar que foi a primeira vez onde o gênero
romance “deu as caras” ao Cinema, mesmo de uma maneira tão simplória e tosca.
Poucos anos mais tarde a hegemonia dos
Lumière como cineastas fôra ameaçada pela primeira vez com o surgimento do
ilusionista francês George Méliès. Pioneiro na arte dos efeitos-visuais, como
mostram os curtas: “Un homme de têtes” (1898, em
português: “Um Homem de Cabeças”), “The
Conjuror” (1899, em português: “O Encantador”) e “L'Homme Orchestre” (1900, em
português: “O Maestro”), Méliès se
consagrou no ano de 1902 com “Le Voyage Dans La Lune” (em
português: “Viagem à Lua”), filme
este que viria inovar o Cinema em vários aspectos. Foi o primeiro filme a ter
mais de 10 minutos de duração, o primeiro curta roteirizado da história da
Sétima Arte, o criador do gênero “ficção científica” e a primeira vez em que a
relação entre humanos e seres interplanetários fôra abordada no Cinema. Outro
ponto forte do curta é a ousadia do mesmo ao abordar a viagem interplanetária,
algo que não era muito bem visto pela sociedade na época, pois muitos encaravam
tal feito como sendo uma verdadeira loucura.
Outro grande
cineasta da época que desafiou a hegemonia dos Lumière foi Edwin S. Porter.
Responsável pela criação da técnica de edição de imagens, Porter realizou duas
obras-primas do cinema que antecedeu a Era Griffith, são elas: “Life of an American Fireman”
(em português: “A Vida de um Bombeiro
Americano”) de 1903, onde duas imagens diferentes, mas que
ocorreram simultâneamente são exibidas a partir de dois pontos de vista, o do
bombeiro que resgatará a mulher em perigo e o da mulher em perigo que será
resgatada pelo bombeiro e “The Great Train Robbery” (em
português: “O Grande Assalto a Trem”)
onde o diretor passou a utilizar a técnica do “cross-cutting”, ou seja, imagens simultâneas são exibidas em
diversos locais. O curta ficou marcado também por, provavelmente, ter sido o
responsável pelo surgimento do gênero western
e por ter sido o primeiro filme polêmico e extremamente violento da história do
Cinema, afinal de contas, os protagonistas do mesmo são assaltantes e assassinos
cruéis que cometem homicídios sem o menor peso na consciência. Outro grande
feito deste “The
Great Train Robbery” está na qualidade de sua
direção, se antes jamais havíamos visto um diretor arriscar fazer uma única
movimentação de câmera, nesta obra Porter arrisca movimentá-la a fim de
acompanhar a fuga dos bandidos e, ainda que tal movimentação soe um tanto o
quanto artificial e “travada”, não há como negar a importância desta ousadia
para que D. W. Griffith pudesse, posteriormente, realizá-la com mais técnica e
talento em filmes como “O Nascimento de
Uma Nação” e “Intolerância”
(particularmente, encaro este “O Grande
Assalto a Trem” como sendo o melhor curta metragem pré-Griffith ao
contrário da grande maioria esmagadora que prefere “Viagem à Lua”).
Fortemente influenciados por “Viagem à Lua” e “O Grande Assalto a Trem” os filmes da época passaram a ter alguns
minutos a mais de duração e, ao invés de 5 minutos no máximo, passaram a durar
entre 10 e 15 minutos, diferentemente dos curtas produzidos pouco antes da
virada do século. Surgiram os nickelodeons, pequenos locais onde as obras
cinematográficas eram exibidas e o preço do ingresso era de apenas 1 nickel. A
Sétima Arte havia se tornado algo extremamente popular.
A fim de afastar a imagem de que
o Cinema estava diretamente ligado às castas inferiores da sociedade, os irmãos
Lafitte decidiram, no ano de 1907, criar os denominados filmes de Arte e atrair
as classes mais nobres ao Cinema.
Um ano antes dos Lafitte
produzirem a sua Arte (em 26 de dezembro de 1906, para ser mais exato), o
diretor australiano Charles Tait roteirizou e dirigiu o filme “The Story of the Kelly Gang” (em
português: “A Estória da Gang de Kelly”),
conhecido como o primeiro longa-metragem da estória da Sétima Arte. O longa em
si abordava a estória de Ned Kelly, o anti-herói mais famoso da história da
Austrália.
Influenciados pelo filme
australiano, o Cinema europeu passou a produzir filmes ainda mais longos, como
é o caso do francês “Les Amours de la Reine Élisabeth” (em
português: “Os Amores de Rainha Elizabeth”,
de 1912, dirigido por Henri Desfontaines e Louis Mercanton e roteirizado por
Émile Moreau) e os italianos “Quo Vadis?”
(em português: “Para Onde Vais?”, de
1913, dirigido e roteirizado por Enrico Guazzoni, baseado em conto de Henryk
Sienkiewicz) e “Cabiria” (em
português: “Cabíria”, de 1914,
dirigido por Giovanni Pastrone e roteirizado por Gabriele D'Annunzio e pelo
próprio Giovanni Pastrone, baseado no livro de Titus Livus e no conto de Emilio
Salgari).
No entanto, em uma era dominada
por cineastas franceses e italianos, foi justamente um estadunidense quem mais
se destacou. É claro que me refiro a David Llewelyn Wark Griffith, mais
conhecido como D. W. Griffith.
Muitas pessoas perguntam: “o que
Grifitth fez de tão importante ao Cinema, se muito antes dele Louis Aimée
Augustin Le Prince já havia conseguido capturar os movimentos de uma pessoa, os
irmãos Lumière já haviam criado a primeira sessão cinematográfica, os mesmos
irmãos Lumière já haviam introduzido a ficção dentro da Sétima Arte, George
Méliès já havia criado um filme roteirizado e Charles Tait já havia criado o
primeiro longa-metragem da história?”. Esta é uma pergunta difícil de se
responder prontamente.
Talvez o maior feito de Griffith
como cineasta fôra a dramatização da Sétima Arte a ponto de torná-la ainda mais
contundente aos olhos de quem a aprecia. Não fosse por Griffith talvez não
tivéssemos as conhecidas “montagens paralelas” que consistem em utilizar a
montagem para alternar diferentes eventos que ocorrem simultaneamente. O leitor
me pergunta: “Mas isso já não foi feito por Porter em “A Vida de um Bombeiro Americano”?”. Sim, foi, mas de uma maneira
pouco convincente, tanto que, se não prestássemos a devida atenção, a inovação
demonstrada no filme de Porter facilmente passaria despercebida. Outros grandes
destaques que marcaram os filmes de Griffith são as atuações frontais e
exageradas por parte dos atores, utilização de paisagens naturais como
“cenários” dos filmes, a ausência de câmera subjetiva, a invenção do plano
detalhe e a movimentação regular das câmeras. A propósito, já que mencionei
acima que o maior feito de Griffith como cineasta foi a dramatização da Sétima
Arte, talvez a característica do cineasta que mais tenha colaborado para isso
seja a maneira como o mesmo trabalha com as câmeras. Em uma época onde o
diretor de um filme era apenas a pessoa que mantinha a câmera ligada durante as
filmagens e que, vez ou outra, arriscava alguns movimentos, mas de maneira
desastrosa (como foi o caso de Porter em “O
Grande Assalto a Trem”), David Llewelyn Wark Griffith inovou totalmente e
através de diversos recursos criados por ele, dentre os quais cito os famosos
close ups, provou que o diretor pode ser um colaborador tão importante para a
carga emocional do filme quanto os roteiristas e diretores dos mesmos.
Vale lembrar também que foi de
Griffith o primeiro filme de gangster de história: “The
Musketeers of Pig Alley” (em português: “Os Mosqueteiros de Pig Alley”, de 1912)
e, é claro, o primeiro épico e o primeiro grande clássico da história do
Cinema, o polêmico e racista: “The Birth of Nation” (“O Nascimento de uma Nação”, de 1915),
filme este que, apesar de moralmente repugnante, foi um marco para a Sétima
Arte e o pioneiro na inovação de vários recursos, sobretudo no que diz respeito
à direção, além, é claro, de ter sido a resposta definitiva à maioria
esmagadora na época que afirmava que os longas-metragens eram inviáveis do
ponto de vista financeiro.
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